A definição de cavalheiro pelo cardeal John Henry Newman


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Retirado de The Imaginative Conservative.
Tradução: André Assi Barreto

Por isso, sabe-se que é quase uma definição de um cavalheiro (gentleman*) dizer que é aquele que nunca inflige a dor. Esta definição é tanto refinada quanto acurada. Ele está especialmente ocupado em meramente remover os obstáculos que entravam a ação livre e desembaraçada daqueles ao seu redor; concorda com seus movimentos, em vez de tomar a iniciativa por si próprio. Seu benefício, em decorrência de sua ação, pode ser considerado como paralelo àqueles tidos confortos ou conveniências oriundos da própria natureza de algo; como o de uma poltrona ou um calor ameno, que cumprem sua função em afastar o frio e a fatiga, embora a natureza proporcione os meios apropriados para o descanso e o aquecimento sem eles.
O verdadeiro cavalheiro, em suas maneiras, cuidadosamente evita tudo que possa causar sobressalto ou abalo nas mentes daqueles que o acompanham – todo conflito de opinião ou colisão de sentimento, toda restrição, suspeição, melancolia ou ressentimento; sua grande preocupação é deixar todos com ele confortáveis tal como se estivessem em casa. Tem seus olhos sob toda sua companhia; é tenro diante do envergonhado, gentil diante do reservado e piedoso diante do disparatado; é sempre capaz de se lembrar com quem está a falar; preserva-se de alusões fora de contexto ou tópicos que possam irritar, raramente se sobressai numa conversa e nunca é tedioso. Apresenta os favores enquanto os faz e se mostra receptivo quanto está a conferi-los. Nunca fala de si próprio, exceto quanto levado a isso e nunca se defende por mera retaliação; não tem ouvidos para calúnias ou fofocas, é escrupuloso ao imputar motivos àqueles que interpõem-se com ele, além de interpretar as coisas em seu melhor aspecto. Nunca é vil ou apequenado em suas contendas, além de nunca levar vantagem indevida, nunca confunde personalidades, abusa de prosa limitada para discussões ou insinua malevolências que não ousaria dizer.
Dada sua prudência vasta, cumpre a máxima antiga de sempre dirigir-se aos inimigos como se um dia fossem ser nossos amigos. Possui demasiado bom senso para ser afrontado por insultos, é bem devotado em demasia para se lembrar de injúrias e demasiado indolente para ser malicioso. É paciente, tolerante e resignado no que diz respeito a princípios filosóficos; submete-se à dor porque esta é inevitável, à perda, porque esta é irreparável e à morte porque é seu destino.
Caso engaje-se em contendas de qualquer tipo, seu intelecto disciplinado o preserva, para o melhor, da descortesia disparatada, isto, em favor das mentes menos instruídas que, como facas cegas, em vez de um corte claro, perdem o ponto apropriado, perdendo tempo com frivolidades, compreendem mal seus adversários e deixam a questão mais confusa do que a encontraram. Pode estar correto ou equivocado em sua opinião, mas é demasiado judicioso para ser injusto; também é tão simples quanto é convincente e tão breve quanto decisivo. Em nenhum outro lugarencontraremos maior franqueza, consideração, indulgência: joga-se à mente de seus oponentes, se responsabiliza por seus erros. Está cônscio da fraqueza da razão humana bem como de sua força, sua competência e seus limites.
 
Caso seja um descrente, será demasiado profundo e tolerante pra ridicularizar a religião ou agir contra ela; é sábio em demasia para ser um fanático ou um dogmático em sua infidelidade. Respeita a piedade e a devoção; ainda apoia as instituições enquanto veneráveis, belas ou úteis, as quais ele não concorda; honra os ministros da religião e declinará de seu conteúdo e mistérios sem agredi-los ou denunciá-los. É amigo da tolerância religiosa, e isso não apenas porque sua filosofia o ensinou a olhar para todas as formas de fé com um olhar imparcial, mas também pela delicadeza e efeminação do sentimento, que é concomitante à civilização.
 
Não que ele não possa, também, ter uma religião, à sua maneira, mesmo quando não for um cristão. Nesse caso, sua religião é da imaginação e do sentimento; é a encarnação do sublime, do majestoso e do belo, sem os quais não pode haver uma filosofia séria. Às vezes, reconhece a existência de Deus, às vezes prefere um princípio ou qualidade desconhecido com os atributos da perfeição. E esta dedução de sua razão ou criação de sua fantasia (fancy) é por ocasião de pensamentos grandiosos e o ponto de partida desse ensinamento tão variado e sistemático que faz com que pareça, até mesmo, um discípulo do cristianismo. A partir do rigor e precisão de de suas habilidades lógicas, é capaz de observar quais sentimentos são consistentes com aqueles que compartilham de qualquer doutrina religiosa; e parece manter todo um círculo de verdades teológicas que existem na sua mente como quaisquer outros pares de deduções.
* Preferi traduzir o termo embora julgue que o sentido original em inglês se perca. Gentleman ou o homem-(bondoso-amável-moderado-nobre) ou ainda o homem honrado, o homem educado, o homem de caráter.
Este texto é um excerto de The Idea of a University.


Sobre

Seminarista na Arquidiocese de Diamantina - MG 27 anos.


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