A paternidade é espiritual


Facebooktwittergoogle_pluspinteresttumblrmail

Poucos dias após o dia do padre (4 de agosto, São João Maria Vianney) celebra-se o dia dos pais. A paternidade, cada vez mais atacada, anda com seu significado tão obscuro! Infelizmente, não há quem não conheça uma família cujo pai abandonou o lar, ou não tenha um conhecido criado sem pai. Mais triste ainda: os homens simplesmente não querem mais ser pais. Quantos jovens, mesmo nas paróquias, anseiam por isso? Sonham com a paternidade? Alguns “se conformam” com ela – é algo que “faz parte da vida”, mas poucos brilham os olhos ao contemplar esta que é a missão de todo homem. Todo homem.

Desconhecer essa missão, que o mundo se esquece cada dia mais, é perigoso e deixa profundas feridas. Isso deixa feridas na nossa sociedade, no psicológico de muitos e nas almas de todos.

É um tempo favorável para meditarmos o significado da paternidade, e resgatarmos isso.

.

A paternidade provém de Deus, nosso Pai:

A primeira coisa que precisamos entender, é que a paternidade é um dom de Deus, e de Deus provém. Ele é o Pai por excelência. Nos diz São Paulo, na carta aos Efésios: “Dobro os joelhos em presença do Pai, ao qual deve a sua existência toda família no Céu e na Terra” (Efésios 3; 14-15).

Deus já no Antigo Testamento manifestava-se com figuras paternas, afinal era Ele o Criador, e também o Pai do povo eleito, Israel. Mas a grande novidade cristã que Jesus traz no Evangelho é que somos todos filhos de Deus, como Ele é. No batismo somos parte da família de Deus.

O Catecismo nos ensina que a paternidade divina ilumina a onipotência de Deus:

“Deus é o Pai todo-poderoso. Sua paternidade e seu poder iluminam-se mutuamente. Com efeito, ele mostra sua onipotência paternal pela maneira como cuida de nossas necessidades, pela adoção filial que nos outorga (“Sereis para vós um Pai, sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor todo-todo poderoso”: IICor 6,18), e finalmente por sua misericórdia infinita, pois mostra seu poder no mais alto grau, perdoando livremente os pecados” (CIC §270).

Não por acaso a mais popular das parábolas de Cristo seja a do filho pródigo, que mostra a dinâmica de paternidade paciente e amorosa de Deus para conosco, seus filhos.

Se entendermos isso, entendemos o significados das palavras de Cristo em Mateus 23, 9: “A ninguém chameis de pai sobre a terra, porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus”. O próprio Jesus chamava São José de pai, Ele não quis aqui dar uma proibição ao termo: quis antes apontar para Aquele de Quem provém a paternidade. Para vivermos a missão paternal, precisamos olhar para o Deus Pai Todo-Poderoso e Nele nos espelharmos, pois ser pai é ser ícone, sacramental do amor de Deus. Por isso toda paternidade é espiritual – seja a do pai de família, do sacerdote, do religioso ou do leigo consagrado. Todo homem é chamado a ser sacramental do amor de Deus.

.

Aspectos da paternidade:

Deus Pai Todo-Poderoso, provedor de toda a paternidade

Deus Pai Todo-Poderoso, provedor de toda a paternidade

Olhando para Deus vemos os três aspectos essenciais da paternidade que devemos vivenciar. Deus Pai é o provedor, o mestre e o protetor de Seus filhos. Avaliemos um pouco esses três pontos:

– Deus é provedor, e isso é visível na Criação, colocada a nossa disposição. Deus provê com tudo que é necessário para que realizemos Sua obra, e não desampara seus filhos (Mateus 6, 25 -32). Mais do que simplesmente prover materialmente, Deus nos provê com sua graça, para que sejamos salvos. Com sua misericórdia, quando caímos. Com Seu Santo Espírito, para que sejamos santificados. Ele tudo nos dá, para o corpo e para a alma.

O papel do pai de família como aquele que traz o ganha pão para o lar é normalmente o mais icônico no imaginário popular. O pai deve prover materialmente. Mas assim como Deus, não só: o pai é provedor também humanamente, ensinando a seus filhos as virtudes, formando eles intelectualmente. O pai deve prover a seus filhos a fé: são os pais que levam a criança ao batismo e se comprometem a ensiná-los a doutrina. O bem mais precioso que um pai pode deixar a seu filho é chama ardente da fé.

É interessante enxergar que famílias onde o pai guarda a fé mais facilmente se mantém fiéis. São muitas as mãe piedosas que as vezes guardam a fé só, pois os filhos se espelharam no pai e não abraçaram a fé. Vemos isso na vida de Santo Agostinho, com Santa Mônica.

O sacerdote exerce sua paternidade provendo os seus filhos com o alimento da alma: a Eucarístia, o Pão da Vida Eterna. Também provê com os outros sacramentos, e com a sã doutrina. É belo que um sacerdote suba ao altar mesmo em missas privadas, rezando por seu rebanho (seus filhos espirituais…) e assim provendo a Eles a graça necessária.

– Deus é Mestre, pois forma seus filhos para a missão. Ele revelou a Israel sua missão como povo eleito e os formou. Ele enviou o Cristo para congregar todos os homens com seu sacrifício na cruz e nos salvar. A paternidade de Deus não é apenas uma “pedagogia”: ela é uma pedagogia para a missão, a doação, o amor e o serviço.

Vemos esse aspecto da paternidade claramente em Jesus Cristo: Ele forma seus discípulos, é Mestre, mas os envia em missão, não os prende junto a si. E devemos notar que o mestre não deve se contentar somente com as palavras, mas ele deve dar o exemplo: Cristo ensinava com seus atos, e os discípulos participaram de sua vida e viram seu exemplo de obediência.

Vemos essa paternidade também clara nos santos fundadores de congregações e ordens: São Bento, São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loyola…todos mestres. Abraçaram a proposta de vida que Deus tinha para eles e com suas palavras, mas principalmente exemplo, foram pais de uma multidão.

O pai deve ir na frente, mostrar ao filho o caminho para a autonomia, para a vida no amor. Com seu exemplo. Mas também provocar com suas palavras: o pai deve dar todo o amparo ao filho para que ele possa caminhar com as próprias pernas, mas sempre deve incentivá-lo a sair de sua zona de conforto. A ir além.

No sacerdócio isso é visível principalmente na direção espiritual, onde ele não dá necessariamente respostas prontas: mas mostra o caminho para que as encontremos. E o exemplo do sacerdócio é o que gera inclusive vocações sacerdotais, pois todos podem ver que nas paróquias com padres fiéis é onde os jovens acabam se inquietando com o chamado vocacional. E cabe ao sacerdote formar seus filhos para que abracem o chamado que Deus tenha para eles, seja qual for. Isso é ser mestre.

– Deus é protetor, e isso é uma de suas características mais evidentes. Protege a alma do demônio e da tentação – “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”. Mas Deus não nos protege apenas de inimigos exteriores: Deus Pai nos protege de nós mesmos. Através da disciplina, através de sua Lei.

Ele põe diante de nós dois caminhos, o da morte e o da vida, mas nos exorta: “escolhe pois a vida” (Dt 30, 19-20). Deus quando se manifesta ao povo eleito logo trata de lhes dar o Decálogo. E esse aspecto da paternidade tem sido profundamente negligenciado.

Um pai deve proteger sua família. É naturalmente o membro mais forte dela. Mas não só de possíveis inimigos exteriores: como Deus, o Pai deve proteger a família dela mesma, aplicando quando necessário uma disciplina. Hoje em dia nenhum pai quer ser “chato” e dizer não, proibir, e castigar mesmo quando necessário. Mas Deus não é assim conosco: Ele nos ama demais e prefere nos desagradar para nos salvar do que “ser um cara legal” e nos ver caminhar para a perdição.

Tudo isso é válido ao sacerdote: é comum hoje vermos padres que preferem “amaciar” a doutrina, principalmente a doutrina moral, em prol de um suposto “acolhimento”. Não é isso paternidade: é preciso denunciar o erro, o danoso, pois isso é amor e caridade: querer que seus filhos se salvem, e aqui na terra gozem da graça e do amor de Deus.

O pai, a exemplo de Deus Pai, deve estar disposto a contrariar, por amor.

.

Um coração de pai:

São Josemaria Escrivá, pai do Opus Dei

São Josemaria Escrivá, pai do Opus Dei

Nós, homens, mesmo os jovens, podemos desde já pedir ao Senhor a graça de um coração de pai. A paternidade é, como mostrado acima, sempre espiritual: todos os três aspectos necessitam de oração, pois é preciso rezar por aqueles que amamos para que Deus os provenha com tudo o necessário para sua salvação; é preciso rezar para que nossas palavras e exemplos dêem frutos e Deus realize sua obra nas almas; e é preciso rezar para que o Senhor proteja as almas contra todo o pecado. O pai é um homem de oração.
Não tenhamos medo de acolher a esse chamado, que é para todo o homem: a paternidade. E que possamos rezar por aqueles homens que Deus colocou em nossa vida, como ícones de seu paternal amor.


Sobre

Carioca, 24 anos, social media, redator e aspirante a congregado mariano. Em tudo: "Ite ad Ioseph"


'A paternidade é espiritual' sem comentários

Seja o primeiro a comentar este post!

Gostaria de compartilhar seus pensamentos?

Seu endereço de email não será publicado.

"Um varão católico não pode esquecer esta ideia-mestra: imitar Jesus Cristo, em todos os ambientes, sem repelir ninguém."

Homem Catolico

Confortare et Esto Vir.