A Sociedade Pornográfica


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[Texto extraído do blog do Professor Carlos Ramalhete]

O que é pornografia?

O termo vem de “porné”, “prostituta” em grego e “graphé”, “escrita” ou “desenho”. É literalmente a prostituição em forma de imagem ou texto. E o que é a prostituição?

Dizem que a prostituição é a mais antiga de todas as profissões. Ao mesmo tempo, ela continua sendo a mais triste e degradante delas; que pai não choraria ao pensar na própria filha reduzida a esta condição? Melhor ser uma escrava colhendo cana que prostituir-se, melhor sofrer uma doença, ou mesmo morrer: não há maior degradação da mulher que a prostituição.

Isto ocorre porque a prostituição desvirtua completamente algo que está no cerne do ser feminino: sua capacidade de gerar vida e nutri-la. A prostituição consiste em entregar a homens que não querem ser pais o prazer venéreo momentâneo do sexo, sem que isso leve a nada mais que uma suja troca de moedas: dali não sai vida, dali não surge amor. Se por azar uma criança for concebida, sua própria condição é o pior xingamento de nossa língua.

A primeira e maior vítima da pornografia é a mulher: ela é vitimada na produção de pornografia, vitimada novamente na imagem do feminino que a pornografia constrói nos viciados, mais outra vez vitimada na dificuldade de relação tanto social quanto amorosa numa sociedade pornocêntrica… A lista é praticamente infinita; a pornografia é o maior inimigo da mulher.

A pornografia, na verdade, e é este o ponto deste texto, é mais, muito mais que a mera exposição de imagens de prostituição. Ela é uma tremenda armadilha, que apelando aos mais baixos impulsos do homem cria um hábito mental pecaminoso, levando à perda das virtudes e à mais completa escravidão. A origem primeira da pornografia está na separação entre o sexo e a conjugalidade reprodutiva, separação esta que em uma sociedade mais ordenada ou apenas menos tecnologicamente avançada que a nossa é praticamente o apanágio da prostituição; daí seu nome. Mas é possível haver esta separação sem que haja o que é abertamente reconhecido como pornografia. Isto pode ocorrer tanto na forma de prostituição “suave” (sexo em troca de bons momentos ou favores) quanto por simples perversão sexual ou moral.

E nossa sociedade está dominada por isso. Vivemos em uma sociedade pornô. Que isto aconteceria, aliás, foi predito há quase 50 anos pelo profético papa Paulo VI, na encíclica Humanae Vitae, n. 17: “É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.” Hoje isso é um fenômeno social de massa.

A natureza humana é tal que o sexo tem normalmente duas conseqüências diretas, ainda que nem sempre elas sejam imediatas ou mesmo estejam inevitavelmente presentes; o sexo é a participação num mistério tremendo, o mistério da Criação, e nele nada é simples e tudo é sagrado, mais ainda desde a Encarnação do Verbo. Quando um casal tem relações, contudo, naturalmente acontece um aumento da união dos dois e, muitas vezes, ocorre igualmente a concepção de uma nova vida que, mesmo sendo uma pessoa única, traz em si metade da carga genética do pai e metade da mãe. É por isso que se diz que o casal se ama tanto que seu amor gera uma pessoa que é um pouco como cada um deles. O amor é gerado e aumenta quando o casal “faz amor”. E ao mesmo tempo o amor gera uma nova vida. Isso é magnífico, mas é uma tremenda responsabilidade. E, devido à incapacidade que herdamos de nosso pai Adão de submeter retamente os instintos à razão, isso é como dar a uma criança uma metralhadora carregada. O sexo pode facilmente destruir vidas, e o faz a cada momento numa sociedade em que, como na nossa, tornou-se comumente desordenado.

A capacidade do homem de provocar com o sexo um prazer gigantesco ainda que volátil, contudo, numa natureza marcada pelo pecado original, leva-nos a tentar separar o que naturalmente é inseparável. O sexo no pecado tende a transformar-se em forma de masturbação em que o outro está ali como um boneco móvel, “como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.” Isso é fruto direto desta separação. Separar o sexo da relação conjugal, em primeiro lugar, e da reprodução, em segundo, são formas garantidas de fazer com que se perca o respeito pelo outro. O parceiro sexual que não é o cônjuge, que não é alguém com quem se constrói uma vida e que se espera ter ao lado quando se estiver idoso, é forçosamente alguém com quem é melhor evitar aquilo que o sexo naturalmente proporciona. Daí o onipresente problema de como despedir amantes; um diz como piada que a mulher perfeita vira pizza às duas da manhã, enquanto o outro diz que paga prostitutas para que elas não telefonem depois. Ambos fugiriam horrorizados da simples possibilidade ou lembrança da possibilidade em última instância quase sempre presente de reprodução. O que todos eles na verdade estão procurando é o anti-sexo, é a relação em que nada passa de um para o outro, nada transpira, a união real não ocorre.

O sexo é a mais alta e excelsa forma de união material entre duas pessoas de sexo oposto; é nele que o matrimônio é consumado e mantido, é nele que a vida é gerada, é nele que se vive a real relação de casal. A doação mútua de si em que consiste o matrimônio ocorre de maneira plena no ato sexual entre os esposos. É um ato de abertura ao outro, de complementação mútua, de abertura à vida e a seu mistério. E a todo este mistério de que participamos pelo simples fato de sermos humanos (e casados!) une-se a elevação pelo próprio Cristo do matrimônio a sacramento. Em outras palavras, o matrimônio é um sinal visível e eficaz de uma realidade espiritual invisível. A relação conjugal, assim, além de tudo que ela já tem de fantástico e maravilhoso naturalmente, é ainda um meio de santificação para o casal!

Já o sexo contraceptivo é uma relação que nega liminarmente tudo isso. É uma relação que — pornogenicamente — diz “eu não aceito você, eu não o quero, não me interessa unir-me mais a você, não quero um filho nosso; só o que me interessa é que você me sirva de objeto sexual para que eu alcance um prazer em última instância solitário e egoísta ao usá-lo como coisa”. Há seitas que, por tabuísmo anti-sexo, mandam que seus adeptos cubram-se completamente, deixando de fora apenas a genitália, nas relações conjugais; a relação disto para a camisinha não é de oposição, mas de complementariedade.

 Roupas de anjo — camisinhas para o restio do corpo

 

Cada uma das barreiras — a “roupa de anjo” dos mórmons e o “preservativo” de látex — procura, pela separação física, bloquear um dos dois fins precípuos da relação conjugal. A camisinha tenta impedir a reprodução exatamente do mesmo modo que a “roupa de anjo” tenta impedir a união; o erro é o mesmo, a “solução” encontrada é a mesma, variando apenas o alvo da distorção. Ambas as barreiras, cada uma a seu modo, são pornográficas. O mesmo ocorre com a inseminação artificial; não é de estranhar que sejam tão frqüentes os casos de abusos sexuais de pacientes por médicos durante tratamentos de fertilidade, especialmente de inseminação. Afinal, o que o médico está fazendo é algo que deveria ser feito através do sexo, e por isso ele sofre forte tentação sexual. É evidente que não deveria ceder à tentação, mas melhor ainda seria não brincar de deus e deixar de oferecer tais “tratamentos”. A concepção que nega o sexo é tão antinatural quanto o sexo que nega a concepção.

O hábito do sexo em que a concepção é percebida como um perigo ou erro, e mais ainda as distorções de relações e organização social de uma sociedade viciada em contracepção, são a base geradora da pornografia. Nunca houve tanta pornografia, e com acesso tão farto, quanto hoje. Em qualquer momento da história havia pornografia; tal é a natureza humana. Na nossa sociedade, todavia, pela primeira vez ao invés de ser difícil encontrá-la é impossível escapar dela. Lembro novamente de Paulo Sexto:

“Tudo aquilo que nos modernos meios de comunicação social leva à excitação dos sentidos, ao desregramento dos costumes, bem como todas as formas de pornografia ou de espetáculos licenciosos, devem suscitar a reação franca e unânime de todas as pessoas solícitas pelo progresso da civilização e pela defesa dos bens do espírito humano. Em vão se procurará justificar estas depravações, com pretensas exigências artísticas ou científicas, ou tirar partido, para argumentar, da liberdade deixada neste campo por parte das autoridades públicas.” (Humanae Vitae, 22)

E é esta ubiqüidade do pornô que faz com que a sociedade esteja profundamente doente. A pornografia, como vimos no início deste texto, nega liminarmente o feminino; além disso, ela destrói o masculino. Não é à toa que hoje nos EUA, país onde a pílula anticoncepcional foi inventada e de onde vêm quase todas as “modas” do século atuais, já se tenha ao mesmo tempo dois fenômenos que parecem não ter relação entre si até que se os examine sob a lente da pornografia.

O primeiro deles é um escândalo que vem ocorrendo repetidamente por toda parte nos EUA: pais e professores descobrem horrorizados que meninas chegando à puberdade literalmente vendem a prestação de serviços de sexo oral aos meninos da mesma idade, trocando-o por pequenas prendas (doces, cola numa prova, um lugar melhor para sentar no ônibus escolar, etc.). Quando interpeladas, as meninas parecem chocadas com o choque dos adultos, e defendem-se dizendo que não há absolutamente nada de errado no que fazem. Numa sociedade normal, meninas nessa idade não deveriam sequer saber que é possível ou de alguma forma desejável a quem quer que seja entregar-se a tais atos, mas eles não só passaram a ser percebidos — graças à pornografia, logo graças à mentalidade contraceptiva — como normais, como ultrapassaram a barreira das idades e passaram a ser desempenhados por crianças incapazes de discernir o que estão a fazer. O outro fenômeno ocorre com os rapazes de cerca de vinte anos de idade, em ambiente universitário. Eles se tornaram tão emocionalmente frágeis que quando são expostos a opiniões diferentes das que acalentam têm crises psicológicas sérias, obrigando as universidades a preparar salas onde eles podem se recuperar à meia-luz, ouvindo música suave, por vezes cercados de cachorrinhos babões. Ora, rapazes de vinte anos de idade deveriam expressar e ser a mais pura masculinidade; eles deveriam estar na vanguarda do cavalheirismo, defendendo o Bem e o Belo, usando de sua força a serviço dos mais velhos e das damas.

O que vemos nestes dois fenômenos, que chegarão mais cedo ou mais tarde aqui — não estamos livres; estamos apenas atrasados — é a negação do masculino e do feminino, não muito diferente da que é feita pela atual mania de pessoas “trans”, que negam o próprio sexo e fingem pertencer ao sexo oposto. Desnecessário dizer que a equiparação absurda da sodomia e da relação conjugal, bem como a normalização da perversão sexual de toda espécie, também são fruto da mesma negação.

No horrendo caso das menininhas prostitutas, aponto ainda que dificilmente poderia haver maior negação do feminino que esta entrega à prostituição, sem sequer entender o que faz, e, mais ainda, na idade em que a menina, prestes a virar mocinha, começa a sentir o chamado da natureza para que assuma um dia o papel de mãe, ainda dentro de um modo de pensar infantil. É nessa idade que elas passam a interessar-se terrivelmente por bonecos com proporções de bebê, com a cabeça desproporcionalmente grande, assim como por príncipes encantados, numa espécie de primeiro ensaio mental para encarar anos mais tarde a realidade matrimonial, numa pré-formação da mente para passar da infância à idade adulta. Esta deveria ser a idade da descoberta do feminino misterioso, do feminino enquanto mistério. O mistério do bebê — que nesta idade a menina sequer precisa entender bem de onde vem; seu interesse é de outra natureza –, o mistério do homem enquanto cavalheiro, enquanto protetor, enquanto força viva e impoluta, que faz com que as meninas pintem cantores como novos Lancelotes, o mistério, em suma, do feminino que se prepara para despertar. É este o feminino que é negado pela sociedade pornô, ao ponto de prostituir a menina antes mesmo que ela tenha a possibilidade, a ocasião ou mesmo o desenvolvimento físico necessários para viver a sexualidade feminina de forma ordenada.

“Performances” como a atualmente em cartaz em São Paulo, em que um homem nu fica à disposição de crianças para ser tocado, são outra forma de vender como normal o que é na verdade pornográfico. É pornográfico retirar o véu de mistério da sexualidade humana e expôr o corpo humano como uma peça de carne no açougue, a ser examinada, manipulada, pesada, medida e, em última instância, digerida e transformada em fezes. É pornográfico não olhar nos olhos, mas fixar-se na nudez. E tudo isto é decorrente da separação prostituta do sexo e da reprodução, como prescientemente apontou Paulo Sexto.

A pornografia não consiste, como na célebre boutade, naquilo que excita o juiz. O grosso da pornografia, na verdade, não excita é ninguém; no fundo, nenhuma pornografia é realmente excitante. Ao contrário: a pornografia opera esvaziando de forma desordenada o ser humano da pulsão sexual. A relação conjugal não-pornográfica é uma relação de entrega, em que cada um dá de si ao outro; no sexo pornográfico, solitário ou a dois, cada um se nega ao outro enquanto pessoa, entregando-se como mero objeto. A pulsão de união transforma-se em pulsão de descarrego físico. A pornografia, seja ela a relação sexual pornô em que um usa o outro e o outro usa o um (ou, mais comum, apenas se deixa usar) seja a simples masturbação sem presença ou contato com o próximo, é em última instância uma forma de ordenha, cujo objetivo é deixar a pessoa vazia, sem que a pulsão sexual a anime e lhe dê vida. É por isso que é tão comum que esta atividade masturbatória se torne um vício que consome a pessoa e a força a voltar várias vezes ao dia à atividade; a existência de pulsão sexual, de vida interna, na pessoa viciada em pornografia causa nela um mal-estar que ela busca dirimir pela descarga erótica vazia.

Num ciclo vicioso, este estado de depleção leva a buscar a excitação mínima necessária para outra “ordenha”, o que por sua vez cria um mercado gigantesco para a indústria pornográfica em senso estrito. Há alguns anos eram as revistas pornográficas; hoje são os vídeos e imagens na internet. O que todos estes têm em comum, todavia, é a negação da pessoa, transformada em objeto exposto, em peça de carne. Ninguém olha nos olhos da atriz pornográfica, porque ela não interessa. Ninguém se incomoda com a péssima qualidade de sua interpretação teatral — se a pornografia se der ao luxo de ter uma historinha –, porque o personagem dela não é uma pessoa, sim um objeto. Até mesmo só atores masculinos podem se dar ao luxo de serem anormalmente feios, pois se sabe que o espectador só terá olhos para sua genitália.

A separação pornográfica entre sexo e reprodução também se manifesta — o que é ainda mais chocante na pornografia explícita — no surgimento de um padrão de beleza em que a mulher não parece ter chegado à puberdade. Cada vez mais, preza-se que as moças não tenham quadris largos, e em muitos casos chega-se ao absurdo de raspar-lhes todos os pelos do corpo, para que se pareçam com crianças compridas. É uma maneira de isolá-las da lembrança da função reprodutiva, sempre tão presente subjacente ao sexo desordenado quanto o é em relação à inseminação artificial. Pode-se ter sexo sem concepção ou concepção sem sexo, mas não se os pode realmente separar: é da natureza que estejam juntos. Mas é nesta separação que está o âmago da pornografia, o que, mais uma vez, impede que se reconheça como humano o ator pornográfico — inclusive o parceiro de relação adúltera, fornicativa ou mesmo conjugal contraceptiva. A pornografia desumaniza.

É também pornografia a falsa arte que procura mecanizar de alguma forma a relação entre os sexos — seja em coisas abertamente subversivas como a performance que mencionei, seja na falsa sofisticação da pornografia de uma Playboy, seja na crueza da menina de doze anos de idade que compra um chiclete para tirar o gosto ruim da boca depois de prostituir-se em troca de um lugar à janela na condução escolar. A arte verdadeira pode perfeitamente retratar o sexo, mas o sexo que ela retrata há de ser, normalmente, o sexo ordenado, o sexo enquanto mistério, mesmo quando ela é graficamente explícita. A pornografia, ao contrário da arte, procura retirar o mistério do sexo, procura transformá-lo em mera forma para o fim desumanizante de livrar-se do mal-estar provocado pela pulsão sexual dentro de si. Na pornografia não se olha no olho dos participantes; os olhos são as janelas da alma, e a pornografia procura negar que quem dela participa tenha alma.

E a sociedade pornô em que vivemos desde que, cerca de cinqüenta anos atrás, foi propagandeada como invenção libertadora a ingestão regular de veneno para separar, à moda da prostituição, o sexo e a reprodução, opera em diversos outros níveis, mais ou menos sutis, mas sempre igualmente pornográficos e igualmente devastadores. As conseqüências que apontei acima são drásticas porque a situação é drástica, mas elas são apenas a ponta de um iceberg gigantesco de destruição social causada pela pornografia. O aumento brutal dos lares desfeitos, bem como a preponderância do divórcio e do adultério, por exemplo, nada mais são que a pornografia em ação. É a visão pornográfica do matrimônio que leva a buscar o prazer venéreo fora dele, negando-o enquanto participação no mistério da criação e, conseqüentemente, percebendo-o como prisão ao invés de rampa de lançamento.

Do mesmo modo, a pornografização de toda relação entre os sexos faz com que a relação sexual passe a ser algo barato. Não é preciso nem mesmo esforçar-se para ter sexo gratuito, mas é preciso um esforço sobre-humano para ultrapassar as barreiras que se levantam à relação ordenada entre solteiros. Uma pessoa que deseje ter uma relação honesta, conhecendo o namorado para decidir se deseja mesmo casar-se com ele e então, só então, entregar-se sexualmente, nos dias de hoje terá enormes dificuldades em encontrar possíveis namorados, pois todos partirão do pressuposto pornográfico de que o namoro serve justamente para complementar a masturbação como forma de exaurir a pulsão sexual. É possivelmente mais fácil hoje em dia entrar para um convento que namorar castamente; o namoro casto acaba sendo o apanágio de pessoas que, muitas vezes, pecam pelo lado oposto ao fazer da religião foco único da vida, como se fossem viúvas idosas, numa fase em que deveriam justamente estar construindo a estrutura de trabalho e família em que viverão mais tarde. O que, no fundo, não deixa de ser também uma desordem de natureza pornográfica, desta feita uma resposta desordenada à hiper-exposição de pornografia e à hiper-sexualização da sociedade, levando alguns mais fracos a desejar refugiar-se na Igreja como os rapazes americanos se refugiam na “sala de empatia”.

Também é decorrente da mesma dominação da sociedade pelo pensamento pornográfico a dificuldade de manutenção de relações sadias de trabalho e civilidade. Os patrões e empregados, acostumados à negação contumaz da dignidade do outro na pornografia, tendem a perceber-se não como componentes complementares de uma mesma sociedade, mas como competidores por uma dose de “prazer” — o lucro, o tempo livre, a produção… — que não querem ter que dividir.

O sexo, e a pulsão sexual dentro de nós, principalmente quando canalizada para a perfeita castidade ou para a castidade matrimonial, é uma fonte tremenda de força e de energia, e ao mesmo tempo, pela sua natureza de mistério, uma escola de respeito e conhecimento do próximo. Já o sexo pornográfico nega o próximo; para o sexo pornográfico, já dissemos, o próximo idealmente seria um boneco ou robô: sua função ali é unicamente a de excitar brevemente e facilitar a “ordenha” da pulsão sexual, de modo a esvaziar a pessoa e deixá-la em estado deprimido. Aliás, é também evidente que o aumento brutal de casos de depressão e o recurso cada vez maior a tratamentos químicos para esta condição são também frutos deste modo de viver pornográfico. A depressão é uma falta de contato com a realidade, levando à acédia, e a secção de contato com o próximo e com a natureza criada incentivada pelo modo de pensar da pornografia prepara o caminho e faz terreno fácil para o surgimento e piora desta condição.

Também é fruto da pornografia a perda a nível societal da capacidade feminina de acolhimento, com a desativação dos sistemas de auxílio mútuo intra e extra-familiares. Tenta-se substituí-los por programas de apoio do governo, sem sucesso. Afinal, a pessoa que se entrega ao álcool ou, hoje, às drogas tem uma chance muito maior de recuperação no seio da família que o ama que em qualquer clínica. Mas a família, influenciada pela desumanização pornográfica, cada vez mais perde a capacidade de acolhimento. O mesmo acontece com os doentes, os idosos, etc.: é cada vez mais comum que sejam jogados às traças em abrigos e casas de repouso, onde sequer recebem a visita daqueles que geraram e criaram.

A sociedade pornográfica é uma sociedade que em toda ocasião procura, que busca permanentemente e incessantemente, modos de despejar fora qualquer energia da pulsão sexual, que se dedica em tempo integral a encontrar modos de livrar-se dela para que se possa voltar ao videogame no sofá. O objetivo da sociedade pornográfica não é, como na sociedade sadia, a custódia da Criação e o pleno desenvolvimento pessoal de cada membro, sim um estado supostamente ideal de saciedade pós-masturbatória em que nada seria incômodo. Ora, este é um estado de completa depleção, um estado de esgotamento em que nada pode ser feito, nenhuma ação efetiva pode ser levada a cabo, nada é inventado ou descoberto. É por isso que ao mesmo tempo temos a agonia pré-orgásmica do assaltante e a covardia doentia com que a grande imprensa e os entendidos mandam que respondamos a ela: o ato do roubo é em si uma cena pornográfica de negação do outro e de uso dele como fonte de prazer (no caso aquisitivo) visando apenas sair daquele desagradável estado causado pela presença de uma pulsão sexual que a sociedade pornográfica percebe como necessitando imediato esvaziamento.

Vemos assim que a pornografia é muito, muitíssimo mais que a mera gravação da prostituição, como a etimologia indica. Ao contrário: a pornografia é decorrente do que faz da prostituição coisa real, que é a apresentação do sexo como coisa à parte desligada do que deveria ser o seu lugar e sua função. A retirada do sexo de seu contexto natural e sacramental leva à diminuição do valor do ser humano, o que por sua vez leva a graves desordens sociais. Ao mesmo tempo, desviar a energia da pulsão sexual para relações pornográficas por si de natureza masturbatória faz com que a sociedade perca suas forças ao ver como desejável um estado de depleção vazia, levando-a a negar ou a não desenvolver plenamente coisas tão básicas quanto o masculino e o feminino, a perder sua força masculina e sua capacidade feminina de acolhimento.

É por isso que cada vez mais é importante que cada católico procure manter firme e viva a própria capacidade de horrorizar-se com a pornografia; que não se exponha a ela, que não pense nela, que não se permita, de modo algum, ter contato com ela. É difícil, mas é possível. A pornografia mata não apenas a alma, mas a sociedade como um todo. O viciado não conseguirá ter uma relação conjugal sadia, lidará desordenadamente com o trabalho e a vida social. Pornografia é um veneno.



Sobre

Seminarista na Arquidiocese de Diamantina - MG 27 anos.


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