A virtude aparente


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Dentro do coração do homem há um esconderijo muito sutil para os seus defeitos, um lugar onde se pode abandonar a capacidade de enfrenta-los e extrair dali apenas um estranho perfume: a aparência de virtude.

As redes sociais são uma imagem aproximada deste lugar obscuro. Ali está exposta a vida da pessoa, mas o estranho é que há sempre sorrisos, mesas fartas, abundância de amigos etc. De maneira alguma infere-se aqui que se deveriam publicar as derrotas, as tristezas, os demônios interiores comuns à vida de qualquer mortal. Isto não! O mal acontece quando fazemos de nossa alma esse local das aparências, enganando aquele a quem jamais deveríamos: o “eu”.

É fácil acontecer de nos considerarmos sinceros naquela situação em que fomos, na verdade, grosseiros. Hora concluímos sermos serenos, enquanto somos apáticos. Pensamo-nos isentos, sendo indiferentes. Quem não se deparou com uma ocasião em que um pai, após uma bronca justa da mãe no filho, o afaga dizendo que “está tudo bem”? Este pai estaria sendo bom, compassivo ou um fraco na educação do filho? Na verdade, não está nada bem.

Poderíamos citar outros tantos exemplos: o avarento sob a máscara do “grande negociante”, o medíocre que se aparece como humilde. Aquele que analisa tanto os outros… criterioso ou linguarudo? Aprendemos a fantasiar nossos defeitos, a cobri-los com o manto hipócrita e farisaico da “virtude aparente”.

Lembro-me de um dos poemas mais violentos do Álvaro de Campos, pseudônimo de Fernando Pessoa:

“E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…” [1]

Não temos nos vestido de príncipes diante de nós mesmos? Temos, de fato, sido sinceros frente a nossos “tão compreensíveis” defeitos?

É necessário aprofundar-se, pôr fim aos semideuses instituídos pelos caprichos de uma vida dúbia talvez não percebida. Lançar luzes sobre aquela nossa principal virtude que pode ser, ao contrário, o principal vício. Arrancar esta máscara quase que aderida à face e entender que defeitos devem ser trabalhados e vencidos, mesmo que nunca suprimidos. Ou continuar a viver mediocramente como diria um santo: “abrindo mão de direitos que são deveres”. [2]

 

[1] Fernando Pessoa – Obra Poética, Cia. José Aguilar Editora – Rio de Janeiro, 1972, pág. 41;

[2] São José Maria Escrivá, Livro Caminho, n. 603.

 


Sobre

Seminarista na Arquidiocese de Diamantina - MG 27 anos.


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