As Manifestações da Acídia


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Por São Gaspar Bertoni:

Não nos cansemos de fazer o bem; se de fato não desistirmos, ao chegar o tempo colheremos. Pois enquanto temos ocasião, façamos o bem a todos (Gl 6,9-10).

No primeiro encontro eu lhes ensinei com São Paulo que “tudo seja feito com honestidade e com ordem” (1 Cor 14,40). Hoje lhes digo que não devemos nos cansar de fazer o bem, por causa da negligência.

Na Primeira Instrução disse-lhes, com São Paulo, que é necessário cumprir todos os deveres do próprio estado, até os menores e com verdadeiro espírito eclesiástico, com toda a perfeição exigida, com honestidade e retidão, no tempo apropriado e com ordem. Vocês colocaram em prática? Pergunto-lhes eu antes que o exija Cristo. Ele lhes pedirá conta de forma rigorosa de cada palavra que vocês ouviram ou perceberam. Não se contentem em ouvir com os ouvidos e, muito mais, se empenhem em não esquecer. Se vocês observaram bem, eu os exorto, ainda com as palavras de São Paulo, a perseverar em fazer aquilo que bem começaram: “Não nos cansemos de fazer o bem” (Gl 6,9). Se não o fizeram, não adiem mais. Comecem neste momento! “Pois enquanto temos ocasião, façamos o bem” (Gl 6,10).

Tanto o parar, como o adiar brotam da acídia ou negligência. Por isso os previno contra ela. O ilustre Bispo de Verona, Cardeal Agostinho Valier, no seu Libelo ao Clero, ou seja, no apêndice das Constituições Gilbertinas, frisa que entre os males, que afetam o clero veronês, está a negligência. Contra ela, ou antes, contra a sua fonte, que é a acídia, me posiciono nessa instrução. Primeiramente explicarei o que é a acídia e depois os danos que provoca.

 

 O que é Acídia

 

A acídia é uma tristeza, um enfado, um torpor de mente, uma tal fraqueza de ânimo, que afasta a vontade de fazer ou de começar alguma obra boa. E isto acontece justamente nas coisas espirituais, nas quais estão apoiadas a honra de Deus e a salvação do próximo. Para essas coisas o acidioso prova aversão. A acídia se contrapõe à alegria espiritual, que nasce do amor e se compraz somente em Deus e nas coisas divinas.

 

As Filhas da Acídia

 

Segundo São Gregório Magno as filhas da acídia são:

  • Malícia, isto é, enfado pelos bens espirituais;
  • Irascibilidade – indignação contra quem a encaminha ou procura persuadi-la a fazer o bem;
  • Medo, para o qual não se aceitam os remédios indicados, que parecem bastante lentos no agir;
  • Desespero, desânimo geral, acha impossível atingir o fim e então não se empenha minimamente;
  • Indolência, fadiga e cansaço em observar os preceitos;
  • Evasão para as coisas ilícitas: afasta-se das coisas espirituais, depois surge o tédio e então se entrega aos prazeres dos sentidos e do mundo.

A estas se podem relacionar todas as outras manifestações de acídia: tepidez; busca dos prazeres; sonolência; ociosidade; contínuo adiamento da conversão e do início do bem; lentidão em prosseguir a obra iniciada; negligência no empenho: que as coisas sejam feitas bem ou mal pouco importa, desde que se livre do peso do cansaço; abulia ou desânimo, que faz ir de mal a pior; dissolução ou portar-se sem controle; descuido ou superficialidade, isto é, deixar de cuidar de si mesmo, das pessoas, das coisas temporais; desleixo ou indolência, isto é, a estultícia em preferir ficar na miséria, para não se empenhar; falta de profunda vida de oração ou secura espiritual; enfado da vida, que surge de um longo descontentamento em fazer o bem; amargura (esta também deriva da tristeza); desatino mental; tagarelice excessiva; curiosidade e inquietação de corpo e de mente.

  • A malícia está ligada a tristeza ou a falta de alegria no serviço divino;
  • a irascibilidade, está ligada a amargura;
  • ao medo, a busca dos prazeres, o adiamento, a tepidez e a lentidão;
  • ao desespero, o enfado de vida;
  • ao desânimo, a sonolência, a abulia, a dissolução, a preguiça, o descuido ou a superficialidade, a indolência, a negligência;
  • à evasão, a dissipação, o desatino, a curiosidade, a tagarelice excessiva, a inquietação e a inconstância.

 

Origem e Conseqüências da Acídia

 

“Amor próprio, negligência e desobediência”.

Destacamos que a primeira, a mais remota e obscura origem do mal seja a soberba. Agora vejamos como ela se torna negligência, ou seja, aquela série de rápidas e insensíveis quedas, com a qual se caminha sem parar até seu desfecho, isto é, a visível queda: a desobediência. Esta é a causa próxima do mau êxito da vida do pastor faltoso. Essas quedas rápidas e sucessivas, em longa série, procedem todas da negligência.

A origem do mal está, pois, na soberba, a fase sucessiva é a negligência e o último passo é a desobediência.

O amor próprio (ou philautia, em português: Filáucia), raiz da soberba, faz logo diminuir o amor de Deus; daquele deriva a negligência. A negligência não sabe amar, e se não se ama o amor ao bem se torna sempre mais fraco e se chega até ao desprezo de Deus. Eis algumas manifestações:

  • Acídia, tepidez, negligência, pouco amor do bem de Deus e do próximo.
  • Perda da vigilância sobre o coração. Negligências na guarda do coração. Dissipação da mente.
  • Perda de vigilância sobre os sentidos do corpo. Distração.
  • Falta de cuidado e de prudência. As grandes empresas enviam contra nós os demônios mais potentes. Uma coisa é cair por fragilidade e outra por falta de prudência e por negligência. A fragilidade pode ser útil à humildade; a segunda ao contrário é danosíssima e prejudica a alma.
  • Negligência na vida de piedade e no conservar a ordem dos empenhos, negligência no fugir do mundo e de suas preocupações.
  • Negligência na oração.
  • Desânimo, indolência: descuidar das pequenas faltas e da grande ascese.
  • Busca das distrações, nas quais se deixa envolver pelos ilusórios apelos do mundo e se fica vazio da verdade revelada e inspirada. Então surge a falsa luz ou o brilho dos modelos profanos dos seculares.
  • Desregramento: viver sem regras, sem escrúpulos, com fraca custódia dos sentidos; expor-se a qualquer encontro.
  • Perda do espírito religioso: assumir o espírito do mundo, não participar de retiros espirituais, deixar os empenhos, a dissipação. Deixar-se envolver nas manobras políticas ou nos negócios mundanos.
  • Curiosidade.
  • Mergulho nos prazeres carnais.

Os acidiosos superam todos os outros pecadores. Diz o provérbio: “a corrupção de quem é ótimo é a pior”. Este é o último degrau; porém ainda não chegamos ao fundo. Antes, Deus permite os pecados carnais, como tratamento para curar um mal maior: a soberba. Se também este, em princípio mais oculto, não produzir fruto, então se chega ao fundo, à desobediência. “O ímpio chegando ao fundo, despreza a todos”.

Fonte: São Gaspar Bertoni, Acídia: Vírus que mata o amor, Tradução Vergílio Zoppi – Goiânia: Ed. da UCG, 2006.

Imagem em Destaque: Soul Portrait



Sobre

Seminarista na Arquidiocese de Diamantina - MG 27 anos.


'As Manifestações da Acídia' possui 2 comentários

  1. 7 de junho de 2015 @ 14:28 Pedro Mendes de Araujo

    Ótimo post! Obrigado.

    Responder

  2. 21 de junho de 2015 @ 15:14 Vinícius Zóffoli

    Ótima essa formação! Me abriu os olhos para muita coisa que passava despercebida. Obrigado!

    Responder


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