Crise vocacional: quando se retira Cristo do centro


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Entre as principais dificuldades que hoje afligem a Igreja, sobressai quase por toda a parte a falta de vocações, como bem alertava o Papa Pio XII já em 1950: “O número de sacerdotes é em geral insuficiente para as necessidades cada vez maiores” [1], e muitos dos esforços realizados em contrapartida a esse problema pode ser observado em algumas dioceses e congregações Brasil afora, que investem recursos no intuito de expandir o alcance da pastoral vocacional e fortuitamente acabam por obter algum resultado.

há vagasEntretanto, a crise vocacional que trataremos aqui está ligada estreitamente à formação dos vocacionados e também ao ministério daqueles que já exercem a vocação escolhida; a saber, querer solucionar crise vocacional apenas através de uma estratégia de marketing melhor elaborada é como querer tapar o sol com uma peneira. O buraco é muito mais embaixo.

Façamos uma breve análise de grande parte da realidade eclesial e comunitária que vivemos: padres que levam o sacerdócio como profissão, politicamente corretos, propagadores de ideologias políticas, desobedientes à Santa Sé criando suas próprias liturgias e doutrinas, e que sonham com uma futura carreira soprando areia em capas de CDs; congregações religiosas cujo carisma se perdeu pela fumaça do modernismo, onde os consagrados(as) mais parecem ativistas de ONGs em que se percebe mais um caráter filantrópico que caritativo; matrimônios vazios também corrompidos pelo modernismo, onde até mesmo animais de estimação substituem os filhos com a justificativa que aqueles dão menos trabalho que estes, cuja responsabilidade também é menor. Resumindo, retiraram Cristo do centro. Ora, se são esses os testemunhos daqueles que deveriam “promover” as vocações, que tipo de padres, religiosos e pais de família estão se formando nos seminários, conventos e nas casas ditas cristãs?

Essa realidade alimenta um ciclo contínuo e difícil de ser rompido pois, como deve ser, os vocacionados seguem o caminho da vocação, que se julga despertada pelo próprio Deus, observando e aprendendo daqueles que já a exercem; e se não há padres, religiosos e pais de família dignos de tais vocações para fomentarem nos vocacionados, mediante o próprio testemunho [2], a busca pela santidade e a prática das virtudes, essa situação deplorável e diabólica vai-se perpetuando na Igreja de Cristo e criando raízes difíceis de serem arrancadas, como já vem acontecendo há algum tempo, principalmente no Brasil.

Muitos jovens poderiam mudar essa situação. Jovens que, mesmo com indubitável chamado vocacional à vida religiosa ou sacerdotal, com reta intenção em cumprir o que determina a Santa Igreja, desistem do chamado ao deparar-se com seminários que proferem um sonoro: “Você não se enquadra nos padrões da nossa diocese/congregação”.

Eis então o “X” da questão: Faltam padres, religiosos e pais de família que vivam verdadeiramente a vocação específica de cada um, que assumam os sacrifícios, deveres e responsabilidades inerentes ao caminho escolhido em consonância com a vontade de Deus; homens cuja hombridade seja reflexo de uma vida obediente a Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Igreja.

Se se pergunta a uma criança, que acabara de aprender a falar, o que ela gostaria de ser quando adulta, prontamente ela responderia a profissão de alguém que ela mesma admira, que tem como uma boa referência, alguém que dá sua vida por ela. Provavelmente, a resposta seria a profissão do pai que sustenta a família ou outras profissões que exigem sacrifícios heroicos evidentes, como bombeiro e policial.

Assim também acontece na Igreja. Devemos ter unicamente a Cristo como modelo a ser seguido, mas na caminhada vocacional, os que foram chamados, quase que instintivamente, elegem alguém que seja sua referência, seja este um santo ou alguém virtuoso que traduza os ensinamentos de Cristo em sua vida; alguém que no exercício da própria vocação seja motivo de admiração e que leve-os à uma vida de santidade.

O próprio apóstolo São Paulo recomendava aos filipenses: “Irmãos, sede meus imitadores, e olhai atentamente para os que vivem segundo o exemplo que nós vos damos” (Fl 3, 17). É necessário novos Paulos, íntimos de Cristo, para que sejam imitados pelos demais.

Monges do Mosteiro Cisterciense Nsa. Sra. de Nazaré, em Rio Pardo - RS, que dedicam toda a vida à busca de Deus na oração, no trabalho, no estudo e no silêncio, em conformidade com as tradições cistercienses [3].

Monges do Mosteiro Cisterciense Nsa. Sra. de Nazaré, em Rio Pardo – RS, que dedicam toda a vida à busca de Deus na oração, no trabalho, no estudo e no silêncio, em conformidade com as tradições cistercienses [3].

Diante de tamanha confusão, quem pode fazer algo concreto para sanar esse problema é você mesmo. Qual a sua vocação? Qual a vontade de Deus para você? Vontade essa que é isenta de qualquer paixonite, onde reina o “assim diz o Senhor” e não o “eu acho que”, onde não há interesse próprio, mas sim, o doar-se inteiramente, por Cristo e pelos outros.

É somente descobrindo a nossa “verdadeira” vocação, e tendo o firme propósito de sofrer o que for preciso para alcança-la, se for essa a vontade de Deus, que surgirão santos e santas de que a Igreja tanto precisa. E há uma luz no fim do túnel. Deus não abandona os seus, e ainda sob tempestade, nos concede como raios de luz, mesmo que poucos, homens que cumprem com seu dever de esposo e pai dignamente, e santos sacerdotes e religiosos que se dão em oblação pelo povo de Deus.

Estejamos atentos aos detratores da fé católica para não adentrarmos nesse ciclo demoníaco que degenera as vocações da Igreja, “porque há muitos por aí, de quem repetidas vezes vos tenho falado e agora o digo chorando, que se portam como inimigos da cruz de Cristo, cujo destino é a perdição, cujo deus é o ventre, para quem a própria ignomínia é causa de envaidecimento, e só tem prazer no que é terreno” (Fl 3, 18-19).

Que o bom Deus cumule a Igreja de santos sacerdotes, religiosos e pais de família, para que floresça na Igreja um novo tempo de homens e mulheres sedentos por cumprir a vontade de Deus em suas vidas.

Rezemos pelas vocações:

“Jesus, Mestre divino, que chamastes os Apóstolos a vos seguirem, continuai a passar pelos nossos caminhos, pelas nossas famílias, pelas nossas escolas e continuai a repetir o chamado a muitos de nossos jovens. Dai coragem às pessoas convidadas. Dai força para que vos sejam fiéis como apóstolos leigos, como sacerdotes, como religiosos e religiosas, para o bem do povo de Deus e de toda a humanidade. Amém”.

_________________________

[1] Cfr. Pio XII, Exortação Apostólica Menti nostrae, de 23 set. 1950.

[2] Mensagem do Papa Bento XVI para o 48º dia mundial de oração pelas vocações – “É preciso que cada Igreja local se torne cada vez mais sensível e atenta à pastoral vocacional, educando a nível familiar, paroquial e associativo, sobretudo os adolescentes e os jovens – como Jesus fez com os discípulos – para maturarem uma amizade genuína e afetuosa com o Senhor, cultivada na oração pessoal e litúrgica; para aprenderem a escuta atenta e frutuosa da Palavra de Deus, através de uma familiaridade crescente com as Sagradas Escrituras; para compreenderem que entrar na vontade de Deus não aniquila nem destrói a pessoa, mas permite descobrir e seguir a verdade mais profunda de si mesmos; para viverem a gratuidade e a fraternidade nas relações com os outros, porque só abrindo-se ao amor de Deus é que se encontra a verdadeira alegria e a plena realização das próprias aspirações. «Propor as vocações na Igreja local» significa ter a coragem de indicar, através de uma pastoral vocacional atenta e adequada, este caminho exigente do seguimento de Cristo, que, rico de sentido, é capaz de envolver toda a vida”.

[3] http://www.nazare.org.br/



Sobre

Mineiro, filho de São José, que me acolheu em sua 'carpintaria' em Bagé/RS para ser instruído e guiado por seu servo, o Padre Cléber Eduardo.


'Crise vocacional: quando se retira Cristo do centro' possui 2 comentários

  1. 23 de maio de 2016 @ 13:06 Leonardo

    O que fazer quando o sacerdote, ao invés de nos ajudar nas questões vocacionais, age como se pedíssemos dinheiro emprestado?

    Responder

    • 8 de novembro de 2016 @ 23:28 Filêmon

      Torne-se devoto de São José, Leonardo. Ele o guiará, pois é o intercessor mais compatível com as questões vocacionais. Persista!

      Responder


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"Um varão católico não pode esquecer esta ideia-mestra: imitar Jesus Cristo, em todos os ambientes, sem repelir ninguém."

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