Danos da Acídia


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Por São Gaspar Bertoni:

Maldito aquele que faz com negligência a obra de Deus (Jr 48,10).

 

A acídia desagrada a Deus

 

O empregado negligente, que esconde o talento na terra, é punido:

Tirem dele, pois, o talento e dêem a quem tem dez talentos. Porque a quem tem será dado e terá em abundância; mas a quem não tem, será tirado até o que tem. E o empregado preguiçoso lancem-no fora nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes (Mt 25, 28-30).

“Maldito aquele que faz com negligência a obra de Deus” (Jr 48, 10). A figueira que não produz fruto será cortada: “Já são três anos que venho buscar frutos nesta figueira, mas não os encontro. Cortem-na. Porque deve ainda explorar a terra?” (Lc 13, 6-7).

Diz Jesus: “Toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e atirada no fogo” (Mt 7,19). O acidioso não imita Deus no agir. Deus Pai trabalha sempre (Jo 5,17), Ele é puro ato.

 

A acídia agrada ao demônio

 

O demônio entra na casa vazia com sete espíritos piores que ele e aí se estabelecem (Mt 12, 44s). Encontram-na vazia de boas obras e de santos desejos e a enchem de obras más e de pensamentos indecorosos. Diz o Evangelho, em outro episódio, que os demônios pediram a Cristo que os deixasse entrar nos porcos (Lc 8,32). Na verdade só isto fazem: divertir-se nos prazeres, como os acidiosos.

Mas o homem é o templo de Deus, como diz São Paulo: “Vocês não sabem que são templo de Deus?” ( 1 Cor 3,16) e “nós somos o templo do Deus vivo” ( 2 Cor 6,16). A acídia transforma o templo do homem de Deus em estábulo, em um imundo covil de demônios.

 

A acídia prejudica o próprio acidioso

 

O acidioso perde o bem preciosíssimo do tempo, dom que Deus concede aos homens, para que conquistem a glória eterna. No entanto ele gasta o tempo a serviço do demônio. Por isso diz a Bíblia: “Não dê aos outros a sua honra e os seus anos à gente cruel”, isto é, ao diabo – como interpreta a Glossa (cf. Pr 5,9).

Para o acidioso o tempo nunca passa e lhe provoca enfado. Porém Ben Sirac afirma: “Filho, não perca tempo e guarde-se do mal” (Eclo 4,20). O tempo para o acidioso é alogo de pouca importância. São Bernardo afirma: “Não há coisa mais preciosa que o tempo; mas, ai de mim!, hoje nada é julgado de tão pouco valor”.

O acidioso não leva em conta a brevidade do tempo. Está escrito no Livro de Jó: “Os dias do homem estão contados” (Jó 14,4) e “os meus dias estão mais velozes que uma lançadeira” (Jó 7,6).

Atesta ainda São Bernardo: “O tempo voa irremediavelmente e o estulto não sabe o que está perdendo”. Não sabe que nesses poucos dias de vida se pode conquistar um bem infinito, Deus, e escapar das penas eternas. O preguiçoso não pensa no bem que perde e nem no mal que vai encontrar.

 

As Consequências Negativas nessa Vida

 

A acídia leva a uma extrema miséria espiritual e material. “No outono o preguiçoso não ara e na colheita procura, mas nada encontra” (Pr 20,4). “Os projetos do homem trabalhador trazem lucro, mas os de quem é preguiçoso levam à indigência” (Pr 21,5).

O acidioso consome em pouco tempo a riqueza espiritual e temporal e depois se prostra num estado de necessidade e não encontra ninguém que lhe dê alguma coisa porque foi um vagabundo.

 

A acídia leva ao aviltamento

Quando alguém perde a riqueza tanto espiritual como material passa a ser considerada uma pessoa sem valor. No ano de 1500, em Veneza, um sacerdote era estimado enquanto levava uma vida santa, mas depois, buscando os prazeres carnais, se desonrou e foi condenado à decapitação. Os ricos do mundo são muito honrados, mas se por um golpe do destino caem na miséria, perdem a estima. Também em nossos dias pudemos ver muitos terminarem dessa forma. “Quem armazena no outono é previdente; quem dorme na colheita passa vergonha” (Pr 10, 5).

 

A acídia causa tristeza

Quando uma pessoa, que antes era rica e honrada, se encontra pobre e desprezada, só tem de se entristecer pela própria indolência, que a reduziu à miséria. Sofre com a pobreza, com a desonra, com a mesma tristeza que sempre acompanha o acidioso: “Como a traça na roupa, como o cupim na madeira, assim a tristeza corrói o coração” (Pr 25,20).

 

A acídia abre as portas aos vícios e aos demônios

Pela tristeza que sente, não tendo diálogo com as pessoas, o acidioso aceita todas as tentações do inimigo e comete inúmeros pecados, envolvido como está de pensamentos vãos e maus desejos.

Passei perto do campo de um preguiçoso e pela vinha de um homem insensato: eis que em tudo havia crescido urtigas, o terreno estava coberto de espinhos e os muros estavam em ruínas (Pr 25, 30-31).

Urtigas e espinhos são os pensamentos fúteis e vãos, desejos maus e nocivos, que continuamente pungem e afligem a alma infeliz do acidioso, refúgio preferido do demônio. Por isso é necessário arrancar continuamente os maus brotinhos que surgem no campo de nosso coração e também podar os sarmentos supérfluos e inúteis da videira; cultivar a nossa alma, com o sacramento da penitência e com a meditação, que tão pouco agradam ao acidioso.

 

A acídia leva à perda dos bens futuros

A acídia tira a capacidade de resistir com força aos nossos inimigos e em seguida nos faz perder a vida da graça e da glória. Sansão nos oferece o exemplo. Era forte, mas adormentando-se nos braços de Dalila, foi feito prisioneiro (cf. Jz 16, 1ss). Da mesma forma, Isbaal foi morto pelos inimigos, que entraram sem serem notados, enquanto ele e sua porteira dormiam na hora mais quente do dia (2 Sm 4,5ss).

A mesma coisa acontece conosco. Enquanto dormimos nos pecados por causa da acídia, entram os demônios e nos tiram a vida da graça e da glória, glória que será dada a quem está vigilante: “Felizes aqueles empregados que o patrão, ao seu retorno, os encontrar ainda acordados; em verdade lhes digo, ele se cingirá, os fará sentar-se à mesa e os servirá” ( Lc 12,37).

A acídia faz o homem se tornar a pior e mais inútil de todas as criaturas inteligentes, ou irracionais ou sem alma. Todas as criaturas, sem demora, realizam a função designada a elas pelo Criador. Não falamos dos Anjos, que são fiéis até nas mínimas coisas, mas dos santos e dos amigos de Deus, que muito se empenham em servir ao Senhor.

 

Os Modelos a Serem Imitados

 

Entre os patriarcas recordamos Abraão. Este, por amor a Deus, deixou a pátria, os parentes, os amigos, tornou-se peregrino em terra estrangeira e não lhe faltaram tribulações; mas sempre serviu ao Senhor com solicitude. Quando hospedou os três Anjos, fez tudo com prontidão (cf. Gn 18,6). Comenta Orígenes: “O velho corre, Sara se apressa e logo vem o filho: na casa do sábio não há lugar para lerdeza”.

Recordemos Moisés. Tamanho foi seu esforço que mereceu uma repreensão do sogro, pois se empenhava além de suas forças (cf. Êx 18, 13ss).

Pensemos no cansaço de Josué, Gedeão, Sansão etc. Davi, por exemplo, na sua juventude se empenhou sempre em defender o povo de Deus, como está no Salmo: “Estou infeliz e oprimido pelas fadigas desde minha juventude” (Sl 88,16). Isso prefigura as fadigas de Cristo.

Quem poderá narrar o cansaço dos santos do Novo Testamento: virgens, confessores, mártires, apóstolos, evangelistas e outros?

São Paulo diz: “Trabalhei mais que todos” (1Cor 15,10). “Eu sofro a ponto de estar acorrentado” (2 Tm 2,9). Na segunda carta aos Coríntios, capítulos 11 e 12, Paulo se gloria do sofrimento e das fadigas enfrentadas. Enfim Cristo: “Cansado da viagem, sentou junto ao poço” (Jo 4,6).

Os homens se cansam empenhados nos negócios do mundo. Quantos sofrimentos enfrentam os negociantes e mercadores, por terra e por mar, no calor e no frio, com o fim de obter uma pequena e incerta recompensa terrena.

Artesãos, agricultores e operários devem enfrentar duras jornadas e noites insones, suportar chuva, desconforto, cansaço, a fim de ganhar um pedaço de pão para viver. Quantas fadigas e riscos afrontam os ladrões, os adúlteros, os bandidos, para conseguir seus intentos perversos!

Também os animais se cansam, para executar fielmente o que Deus lhes determinou. Os pássaros, no tempo designado, transmigram para outras regiões e conforme as estações preparam os ninhos nos lugares indicados pela natureza; os animais selvagens buscam as cavernas; as abelhas depositam o doce mel nos favos; as formigas, no verão procuram e recolhem o alimento para o inverno (cf. Pr 6,6ss). Cada animal executa com diligência a sua tarefa.

As árvores e as ervas, no tempo determinado, produzem folhas, flores e frutos, conforme a própria espécie. O sol, a lua, os planetas, as estrelas e os outros corpos celestes se movem ordenadamente, sem que um atrapalhe o outro; fazem suceder as estações e influem maravilhosamente na natureza (marés, desenvolvimento da semente…), tudo como foi estabelecido por Deus. Obedecem fielmente a seu Criador.

Somente o acidioso, a pior de todas as criaturas, não cumpre seu dever. Que vergonha! Deixa-se superar por todas as criaturas e nem deseja refletir porque é que veio ao mundo. O fim é agir nessa vida presente, para poder descansar eternamente no reino dos céus. Diz a Bíblia: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden, para que cultivasse e o guardasse” (Gn 2,15). Se o homem devia fazer isso antes do pecado, quanto mais depois, quando Deus lhe disse:

‘Maldita seja a terra por tua causa!’ Com sofrimento dela tirarás o alimento para todos os dias de tua vida. Espinhos e cardos produzirá para ti e comerás a erva dos campos. Com o suor do teu rosto comerás o pão (Gn 3,17-19).

Se fomos agravados por Deus com tantas fadigas, se devemos arrancar espinhos e abrolhos, seja da terra de nossos campos, seja da terra de nossa corrompida natureza humana, como é possível que o acidioso consuma o seu tempo sem agir bem?

 

O Exemplo do Apóstolo Paulo

 

O apóstolo Paulo, plenamente cônscio da vontade divina e da necessidade de agir bem, não só se empenhava mais que os outros em pregar, escrever às pessoas distantes, consolar os aflitos, confortar os fracos; em padecer fome, frio, perseguições e outras tribulações, como também trabalhava com as próprias mãos para ganhar o pão de cada dia. “Nós nos esfalfamos trabalhando com nossas mãos” (1 Cor 4,12).

Vocês sabem como devem imitar-nos: nós não ficamos sem fazer nada, quando estivemos entre vocês, nem pedimos a ninguém o pão que comemos; pelo contrário, trabalhamos com fadiga e esforço noite e dia, para não sermos um peso para nenhum de vocês. Não porque não tivéssemos direito a isso, mas porque nós quisemos ser um exemplo para vocês imitarem. De fato, quando estávamos entre vocês, demos esta norma: quem não quer trabalhar, também não coma (2 Ts 3,7-10).

“Irmãos, vocês ainda se lembram dos nossos trabalhos e fadigas. Pregamos o Evangelho a vocês, trabalhando de dia e de noite, a fim de não sermos peso para ninguém” (1 Ts 2,9). “Vocês sabem que estas minhas mãos providenciaram o que era necessário para mim e para os que estavam comigo” (At 20,34).

Por isso Paulo podia exortar os outros na fadiga e confortá-los: “Junto comigo participe também dos sofrimentos, como bom soldado de Jesus Cristo” (2 Tm 2,3) e “Quanto a você, seja vigilante, suporte o sofrimento, faça o trabalho de anunciador do Evangelho, realize plenamente o seu ministério” (2 Tm 4,5).

Ó infeliz acidioso, que desculpa você pode dar se o acusam a Escritura e todas as criaturas? Suplico-lhe, tome consciência da sua perigosa situação, porque “o homem nasceu para o sofrimento” (Jo 5,7) e não para o descanso. Pense nos danos futuros e não mereça, por um momentâneo descanso, padecer sofrimentos e tormentos, sem esperança de prêmio. Agora é o tempo de fazer o bem a todos (Gl 6,10). Assim poderá descansar para sempre.

Fonte: São Gaspar Bertoni, Acídia: Vírus que mata o amor, Tradução Vergílio Zoppi – Goiânia: Ed. da UCG, 2006.

Imagem em Destaque: Secret Sorrow



Sobre

Seminarista na Arquidiocese de Diamantina - MG 27 anos.


'Danos da Acídia' possui 4 comentários

  1. 29 de novembro de 2015 @ 19:39 Danilo R.

    Excelente compilação de pensamentos!
    Não conhecia São Gaspar Bertoni, mas, para variar, como acontece na Igreja, o homem não é santo por acaso. Obrigado Willian por disponibilizar tantas inspiração em um mundo nada inspirador. O site é uma arma contra o mundo, a carne e o demônio. Contem comigo.

    Responder

  2. 23 de junho de 2016 @ 18:29 Walter Assis

    Vcs conhecem um contato onde eu poderia comprar esse livro sobre a acídia de são Gaspar Bertone?

    Responder

    • 21 de julho de 2016 @ 16:56 Daniel Alves

      Infelizmente, parece que não há livros dele em português, Walter

      Responder

      • 27 de julho de 2016 @ 22:47 Walter Assis

        Ok Daniel, vou ver se acho alguma coisa. E obrigado de qualquer modo.

        Responder


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