Fidelidade do Amor


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Por São Gaspar Bertoni:

Tudo seja feito com honestidade e com ordem (I Cor 14,40).

Veneráveis irmãos, hoje dou início às instruções espirituais. […] Essas instruções têm por finalidade reforçá-los na vida de piedade.

Parece-me que não há modo melhor de fazê-lo do que com as palavras do apóstolo Paulo, que dizem tudo na verdade: “Cada coisa seja feita com honestidade e com ordem”. Entremos logo no assunto porque é longo o caminho que devemos percorrer, com essa orientação bem segura, para conseguir viver perfeitamente o estado de nossa vocação: “Resta ainda um longo caminho” (1 Rs 19,7).

 

“Tudo seja feito”

 

Meditemos, com atenção, a primeira parte: “Tudo… seja feito” (1 Cor 14,40).

Há alguns que não fazem mesmo nada; enterram o talento, como o servo preguiçoso, condenado pelo Senhor (Mt 25,18 ss.). Vocês devem cumprir todos os deveres de seu estado: “Tudo”. Alguns deveres dizem respeito à sua perfeição pessoal, como a oração, a mortificação; outros se referem à perfeição das pessoas que lhes serão confiadas, como, por exemplo, o estudo. Não devem fazer apenas alguns deveres e deixar de cumprir a maior parte deles; ou então a maior parte sim e alguns não. E nem mesmo fazer os menores e descuidar-se dos mais importantes e pesados ou viceversa. Não se descuidar das coisas pequenas!

Vamos considerar, para nos convencer ainda mais, o que se diz em matéria de juízo: “Quem é fiel no pouco, é fiel também no muito” (Mt 25,21); e ainda: “Quem despreza as pequenas coisas, logo cairá” (Eclo 19, 1). Alguns exemplos nos podem esclarecer: a gota contínua escava a pedra; uma centelha pode provocar um incêndio.

Afirma a Bíblia: “Quem teme o Senhor, não despreza nada” (Eclo 7, 18 Vulgata). Essas verdades foram ensinadas por Deus mesmo. Nós as ouvimos tantas vezes. Porém não basta ouvi-las, é preciso colocá-las em prática! Isto porque são principalmente os fatos ou a experiência que nos fazem perceber os efeitos negativos do descuido das pequenas coisas.

Quantos sacerdotes e clérigos estão no inferno, por causa de um olhar curioso ou por ter começado com uma leve transgressão dos próprios deveres!

As Conseqüências: Três Terríveis “Ai de vós”

 

Primeiro dano: o cansaço vocacional

“Ai de vós” “se começarem a viver descuidados! Pouco a pouco perderão o primeiro fervor: Eu o devo reprovar porque abandonou o primeiro amor” (Ap 2,4). Então cairão na languidez de espírito: “O meu coração está secando e eu me esqueço de comer o meu pão” (Sl 102, 5). Cairão na tepidez: “Visto que é morno, estou por vomitá-lo de minha boca” (Ap 3,16). Cairão no relaxamento: “Larga é a estrada que conduz à perdição e muitos são aqueles que entram por ela” (Mt 7,13).

Perderão a graça da vocação: “A quem não tem será tirado até o que tem” (Lc 19, 26). A graça da vocação é preciosíssima. “O Senhor é minha parte de herança e meu cálice: na suas mãos está a minha vida. Para mim a sorte caiu em lugares deliciosos, esplendorosa é minha herança” (Sl 16, 5-6). “Ninguém pode atribuir esta honra a si mesmo, a não ser quem é chamado por Deus, como Aarão” (Hb 5,4). A vocação é uma série imensa de graças: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará… até que não me tenha conduzido a pastos de ervas verdejantes” (Sl 23,1ss), isto é, até que não os tenha conduzido definitivamente ao céu. Esta série de graças pode se romper. E para rompê-la é preciso muito? Não, basta começar a não corresponder: aquela corrente, aquela ligação, aquela série de graças do Senhor, em uma alma que não corresponde, se rompem logo. E então o que acontece? Acontece que as coisas da vocação dão enfado, fastio, pesam (e isto acontece com muitos): com o correr do tempo ou não fazem ou fazem mal feito (como tantos). Estejam atentos! Perde-se a própria vocação como acontece a tantos padres nos dias de hoje.

 

Segundo dano: a perda da vocação

“Ai de vós!” se começar a dizer: “Oh! Não há necessidade de tantos escrúpulos! É preciso ter liberdade diante das regras. Eu não busco tantas perfeições”.

Seria sinal de que não conhecem as exigências de seu estado, que “caminham nas trevas” (Sl 82,5) e que perderam ou estão para perder a graça da vocação, antes a mesma vocação.

 

Terceiro dano: enfado pelas coisas de Deus

“Ai de vós!” “se começar a apreciar os gozos do mundo: as riquezas, as honras, os prazeres. Seria sinal de que sentem enfado pelas delícias do céu. Para os Hebreus desapareceu e não mais apareceu o maná, quando começaram a apreciar os frutos da terra” (Gn 5,12).

 

“Tudo seja feito com honestidade”

 

Reflitamos sobre a palavra: “honestidade”, sobre o agir com honestidade. Há uma honestidade natural, que é agir com retidão, segundo a luz da razão; e uma honestidade sobrenatural, que consiste em agir com retidão, movidos pela luz da fé.

Há uma honestidade do sujeito que age: interior e exterior; e uma honestidade da mesma ação. Agir com honestidade ou retidão implica fazer tudo com espírito verdadeiro, generoso, convicto, vivo, consciente de que as coisas que devem ser executadas com a força do próprio estado são aquelas que Deus quer de vocês e que executando-as estão obedecendo a Ele e cumprindo sua vontade.

Esse espírito é indispensável porque é a alma de toda a ação. Sem este se trabalha em vão: “Labutamos a noite inteira e não pegamos nada” (Lc 5,5). Eu fiz isso, eu fiz aquilo, e não consegui nada! É necessário que cada ação seja orientada por esse espírito. A toda hora digam como aquele Santo: “Dá-me, Senhor, o teu espírito”.

Você está na escola e o coração em Deus; está na igreja a serviço e o coração em Deus; canta, senta-se à mesa, passeia, reza, estuda, dorme e o coração em Deus. “O Senhor teu Deus junto de ti é um poderoso salvador. Exultará de alegria por ti, te renovará com seu amor, se alegrará por ti com gritos de alegria” (Sf 3,17).

Se a sua ação for animada por esse espírito interior de honestidade, não faltará a honestidade exterior, isto é, o decoro, a compostura, a seriedade e aquela modéstia religiosa não afetada, que ajuda muito à edificação do próximo. Conforme o Concílio de Trento:

Não há nada que arraste fortemente o próximo à piedade e ao culto de Deus, de maneira assídua, quanto a vida e o exemplo daqueles que se dedicam ao ministério divino. De fato, quando as pessoas os vêem viver acima das coisas deste mundo, voltam seus olhos sobre eles, como num espelho, e aprendem a imitá-los. Portanto é absolutamente necessário que os clérigos, chamados ao serviço de Deus, tenham vida e comportamento tais que, no modo de vestir, nos gestos, no caminhar, no falar e em todas as outras coisas manifestem uma postura grave, modesta e religiosa. Evitem até as leves transgressões, que neles seriam enormes, de modo que as suas ações inspirem em todos veneração.

Não basta fazer as coisas como as fazem muitos. É preciso fazêlas bem, com grande precisão, como convém à obra de Deus. “Maldito aquele que cumpre as obras do Senhor com negligência” (Jr 48,10). Cristo fez bem todas as coisas (cf. Mc 7, 37).

 

 “Tudo seja feito com ordem”

 

Ordem em dar prioridade a certos empenhos e ordem em programar o tempo.

 

Ordem na prioridade

  • Primeiramente servir a Deus e louvá-lo com a Liturgia das Horas, depois qualquer outra coisa;
  • Primeiramente a alma, com a meditação e as leituras espirituais, depois o descanso do corpo;
  • Primeiramente a perfeição espiritual, depois o estudo.

 

Ordem nas ocupações

“Acima de tudo esteja a caridade, que é o vínculo de perfeição” (Col 3,14)

  • Primeiramente o estudo obrigatório, depois aquele por deleite pessoal;
  • Primeiramente estudar para si mesmo, depois para os outros;
  • Primeiramente deve-se aprender, depois ensinar aos outros.

[…] É preciso elaborar um programa e distribuir com ordem os empenhos. Não se deve fazer as coisas ao acaso. Diz um mestre de espírito: “Fazer as coisas ao acaso é sempre um mal”. Um clérigo que vive ao acaso leva uma vida confusa, que facilmente poderá se transformar em má. Oh! Quantos vivem assim! São Basílio anota:

Pus-me a observar alguns dos nossos e descobri o que são pelas coisas que fazem. Vi, por exemplo, alguns que fazem uma certa coisa não porque é o momento de fazê-la, mas porque eles acham que devam fazê-la naquele momento. Assim, em outra ocasião, em que não estão com o mesmo humor, ou não a fazem ou a fazem de qualquer jeito. Estes são religiosos que começam o dia sem saber o que devem fazer, e o terminam sem saber o que fizeram. Por isso num dia fazem e no outro não: hoje de um modo e amanhã de outro; uma vez isto e outra vez aquilo; uma vez menos e outra mais; uma vez tudo e outra nada. Jamais do mesmo modo, sem método ou programa, agem de acordo com sua volubilidade. Neles há superficialidade e dispersão e movidos por um espírito inconstante, agem sem ordem.

[…] São Bernardo sugere: “Sejam definidos os tempos e distribuídas convenientemente as horas”. É preciso estabelecer um primeiro princípio: cada cristão e, muito mais, cada clérigo devem distribuir as horas do dia, de tal modo que não fique nenhum momento vazio, sem uma ocupação. O tempo é um dom precioso; deve-se fazer bom uso dele, construindo para a vida eterna. Porém vocês não conseguem fazer bom uso, se antes não determinarem os tempos, se não fizerem um horário, um programa do dia. “Sejam definidos os tempos e distribuídas convenientemente as horas”.

 

Fixar o tempo da oração

  • Meditação, pela manhã: “De manhã penso em ti” (Sl 63,7);
  • Oração vocal: Liturgia das Horas etc. “Sete vezes ao dia eu te louvo” (Sl 119,164);
  • Leitura da Escritura e dos Documentos da Igreja: “Dedique-se à leitura” (1 Tm 4, 13). Sagrada Escritura, Vidas dos Santos, livros que tratam da vocação eclesiástica ou da perfeição necessária a quem é chamado e dos meios para atingi-la: como Rodrigues, Scupoli; livros de meditação: O maná espiritual de Segneri, o Spinola.1
  • Exame de consciência, toda tarde: “Reflito e o meu espírito vai se interrogando” (Sl 77, 7). Examinar-se particularmente sobre o defeito predominante. Além disso: se recitou bem a Liturgia das Horas e as outras orações, se obteve fruto da Eucaristia; se vigiou bem os seus sentimentos; se conservou o espírito da vocação eclesiástica; se suas ocupações e seus descansos foram dignos de um ministro do Senhor.

 

Fixar um tempo para o estudo

A Adão, antes do pecado, foi entregue o Paraíso terrestre para que o cultivasse e o guardasse e assim fugisse do ócio e não caísse no pecado. “O ócio favorece toda maldade, por isso – frisa o Crisóstomo – Deus ordenou a Adão que trabalhasse e guardasse o jardim do Éden”. A vocês Deus estabeleceu que cultivem as suas mentes como um jardim, para que depois possam produzir, por meio da caridade, frutos de ciência úteis ao próximo e agradáveis a Deus.

 

Fixar um tempo para a recreação

Uma recreação moderada é conveniente a um clérigo: “Filho, usa bem o tempo” (Eclo 4,23), “não se perca nenhuma parte deste bom dom” (Eclo 14,14).

 

Fixar um tempo para o sono

Fixar o tempo necessário, não excessivo, para o sono. O sono excessivo provoca a preguiça, o descuido e a pobreza de espírito, que é a pior conseqüência de todas. Pela manhã, quando se levanta tarde, se sente fraco durante o dia, sem vigor, sem força e à tarde se constata, com pesar, que se perdeu toda a jornada, que não se fez nada. Eis a pobreza de espírito que brota do prazer de ficar na cama.

Deus mandava o maná, de cada dia, antes do sol e quando o sol começava a esquentar o maná se derretia (cf. Êx 16,21).

 

“Tudo seja feito”

 

Não nos contentemos em ter conhecido belos projetos ou tê-los na cabeça; também não nos basta nem mesmo um lindo programa escrito. É preciso haver obra, isto é, o programa deve se tornar vida vivida.

Quem, pois, quer se convencer das verdades ouvidas [escreve São Gregório Magno] se apresse em transformar em obras aquilo de que seu intelecto já teve conhecimento. Os discípulos de Emaús receberam de fato a luz, não tanto escutando a Palavra, mas no momento de praticá-la, quando hospedaram Jesus.

Não confiemos apenas em bons desejos. São necessários fatos! Fatos! “Procurem, pois, irmãos tornar sempre mais firmes a sua vocação e a sua escolha” (2 Pd 1,10).

Nota:
1 Afonso Rodrigues, jesuíta espanhol, educador (1538-1619), escreveu o livro Exercício de perfeição, do qual São Gaspar fez uma edição italiana. Lourenço Scupoli, teatino (1530-1610), nativo de Ottanto. Autor de Combate espiritual. Paulo Segneri, jesuíta, orador sacro e escritor italiano (Neturno 1624 – Roma 1694). Renunciou ao ensinamento científico, pediu e obteve uma classe de Gramática em Pistoia, onde iniciou também a atividade de pregador. Escreveu: Panegíricos sacros, Quaresmal, Pregações feitas no Palácio Apostólico, O maná da alma, O cristão instruído, O incrédulo sem desculpas. Fábio Ambrósio Spinola, jesuíta (1593-1671), genovês, professor de Filosofia e Sagrada Escritura em Roma, pregador muito solicitado. Escreveu Pregações Quaresmais e “Meditações sobre a vida de Nosso Senhor Jesus para cada dia”.

Observação: O Uso do “[…]” são omissões propositais, feitas pela equipe Homem Católico, para melhor compreensão do Texto.

Fonte: São Gaspar Bertoni, Acídia: Vírus que mata o amor, Tradução Vergílio Zoppi – Goiânia: Ed. da UCG, 2006.



Sobre

Seminarista na Arquidiocese de Diamantina - MG 27 anos.


'Fidelidade do Amor' possui 2 comentários

  1. 5 de junho de 2015 @ 13:53 womanwithin formal dresses

    Thank you for your article post.Really thank you! Keep writing.

    Responder

  2. 14 de agosto de 2015 @ 21:32 Matheus Medeiros

    Muito obrigado por compartilhar esse conteúdo riquíssimo para nossa espiritualidade. Continuem esse trabalho evangelizador!

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