Os pecados da língua e o dever de reparar a honra alheia


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Nos tempos de antanho os mexericos, as fofocas, as intrigas e calúnias restringiam-se, normalmente, ao círculo das velhas desocupadas. Hoje com a celeridade e as facilidades da internet, e diga-se de passagem, com os grupos secretos em redes sociais, criou-se não poucas vezes, um ambiente propício e fecundo de intrigas, fofocas, mentiras, maledicências e por fim, destruição do nome e da honra alheia. Ali todos são valentes, comem galinha colhida no despacho da encruzilhada e arrotam faisão. Claro, são valentes, são potentes porque… o idiota de que falam não está ali. Ali todos se consideram o suprassumo do conhecimento, dos cânones, da literatura, da teologia moral e dogmática, da sublimidade dos astros ao germe microscópico. São os tais que farão tudo ou já fazem e os outros… ah, pobres… são uns pobres coitados, dignos de pena e … escárnio…

Recordemos enquanto é tempo: o pecado de Lúcifer foi a soberba. Soberba essa que contaminou Adão e Eva e o gênero humano. O desviar o rosto mofando-te, ridicularizando o teu irmão, mais cedo ou mais tarde vai-te levar ao desprezo de Deus. Vai levá-lo à ruína. A internet, as redes sociais ou quaisquer meios modernos são maus? Não! Obviamente que eles são aquilo que lá colocamos. A pergunta é: E aquilo que lá colocamos, tiramos de onde? De nosso coração! Um coração, um caráter equilibrado jamais vai unir-se à roda dos zombadores. Pelo contrário, o sujo, o imundo e o venenoso por onde passam deixam os rastros da sua baba venenosa, do seu vírus. E infectam!

Não poucas vezes pessoas se reúnem em grupos secretos nas redes sociais para partilhar e crescer, crescer em cultura, crescer em fé, crescer no todo como pessoa. Discordam entre si? Óbvio. Ninguém é obrigado a pensar da mesma forma que outros. Mas também não poucas vezes há os espíritos de porcos que, já tendo chafurdado no coxo, vê no outro a oportunidade, no irmão, a quem debochar, denegrir, sujar e, se pudesse, até mesmo tirá-lo da existência física. Tal é o ódio! Tal é o nojo que sente por alguém que pensa diferente e com o qual não tem coragem de debater, de expor pontos discordantes.

Normalmente entre aquele que usa de malícia há pelos menos outros dois: um que ouve, lê e sabe e cala-se consentindo com o mal e o outro, que sofre a ofensa. Geralmente o ofendido não está presente ou foi “banido” do grupo por discordar do cabecilha ou do seu ídolo com pés de barro.

Para estes três tipos de pessoas escrevo:

– A ti, que te dizes cristão e ainda não te converteste e só sabes destilar o veneno e desejar a desonra e a morte daquele que pensa diferente, saiba que assim Deus te vê: ” Um louco furioso que lança chamas, flechas e morte: tal é o homem que engana seu próximo e diz em seguida: mas, era para brincar.” (Provérbios 26, 18-19). Assim diz o Senhor: “Mas eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão: Raca, será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo da geena.” (São Mateus 5, 22). “Raca” significa toda uma gama infinita de xingamentos com o qual se destrói a vida e a honra do irmão. Aquele que secretamente e ardilosamente trama contra a vida e honra do irmão, se não repara o mal que fez e se converte, será sim réu de juízo e seu lugar será junto com seu pai, o pai da mentira….. O apóstolo Paulo compara aqueles que zombam, que promovem rixas e animosidades aos sodomitas: “Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os aos sentimentos depravados, e daí o seu procedimento indigno. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem.” ( Romanos 1, 28-31).

– A ti que ouves ou lês ou partilhas ou ainda, te calas diante da boca maliciosa, diz o Senhor: ” Quem se regozija com a iniqüidade será desonrado; quem detesta a correção abreviará a sua vida; quem odeia a tagarelice, destrói sua malícia. “(Eclesiástico 19, 5). De ti que te calas quando outros debocham de teu irmão, diz o Senhor: “Tu te fiavas em tua malícia e dizias a ti mesma: Ninguém me vê! Mas tua habilidade e tua astúcia te desencaminharam a tal ponto que dizias em teu coração: Eu e nada a não ser eu! ” (Isaías 47, 10); “É o teu proceder, são os teus atos que te acarretam essas desgraças. Eis o fruto de tua malícia, uma amargura que te fere o coração.” (Jeremias 4, 18). E a tua desonra, meu caro, minha cara, vêm e virá a galope!

A estes dois tipos, o caluniador e o que vendo a calúnia se cala, deixo o conselho de salvação do Senhor: “Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo todo seja lançado na geena. E se tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo inteiro seja atirado na geena.” (Mateus 5, 29-30). Que é este olho ou esta mão que te leva a pecar? É o grupo secreto? É a rede social? Ou é teu coração que ainda não se converteu? Minha oração é para que tomes vergonha na cara o quanto é tempo, antes que o castigo merecido por tuas más ações caiam sobre ti, tua casa e todos teus projetos. Foste homem para arrotar tua superioridade moral, intelectual e cultural sobre o outro? Sejas homem de verdade, antes, filho digno da santidade de Deus Pai para voltar atrás e pedir perdão. Ah, queres continuar no erro, no pecado, na malícia? Pois que continues, já tens teu caminho pavimentado da estrada que conduz à morte eterna. Diz Tiago: “Haverá juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o julgamento.” (Tiago 2, 13).

– A ti, que sofres com a perfídia e a malícia, cabe-te duas coisas: Calar sobre o mal recebido e rezar por aqueles que te perseguem. É o conselho de Deus: “Não respondas ao néscio segundo sua insensatez, para não seres semelhante a ele.” (Provérbios 26, 4). E também: “Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem.” (São Mateus 5, 44). Usemos, pois da tecnologia e de qualquer coisa lícita de modo lícito, de modo santo e busquemos ser perfeitos como nosso Pai que está no céu. (Mateus 5, 48).

Uma santa Quaresma, vivida em santidade, a todos.



Sobre

Seminarista na Arquidiocese de Diamantina - MG 27 anos.


'Os pecados da língua e o dever de reparar a honra alheia' possui 3 comentários

  1. 24 de abril de 2016 @ 08:29 José

    Sua benção Padre Cleber!

    Texto excelente! Estou extremamente assustado com o uso que as pessoas tem feito da Internet. Já vi pessoas dizerem que preferem ficar sem energia elétrica do que ficar sem sinal de Internet. Será que as pessoas também estão preferindo a Internet do que a Deus. Concordo muito com o texto, considero a Internet como dinheiro: bem usado, um ótimo recurso para fazer coisas agradáveis a Deus; uma obsessão, uma doença da alma.

    E como é possível ter um vida espiritual, uma vida de oração, quando o apito do celular está a nos interromper a todo momento. Se vou ao banheiro, preciso mandar uma nota ao grupo do Whatsapp!

    Imagine alguém sentar do lado da esposa para conversar, e ela mergulhada no celular. Eu fico com muito medo.

    As pessoas não querem mais pensar! Vão ao Google para tudo!

    Padre, estou com muito medo dos males que a Internet pode causar as pessoas. Será que estamos preparados para tanta modernidade. Eu peço a Deus que ajude a todos a saber usar corretamente a Internet, inclusive a mim.

    Abraço e parabéns pelo texto!

    Responder

  2. 1 de dezembro de 2016 @ 23:24 Gustavo Braga

    A benção, padre

    Este é o primeiro texto que leio deste blog – acompanho o Catholic Gentlemen, que pelo que pude ver tem alguns textos traduzidos aqui – e logo me chamou muito a atenção pelo título.

    Sou um ex-desviado que tomou vergonha na cara e, como o filho pródigo, resolveu voltar para a casa de onde nunca deveria ter saído. Mas o que me tocou profundamente no texto é que passei exatamente por isso. Fui um acusador e caluniador. Pertenci, se é que não fui fundador, de grupos secretos e coisas parecidas criados simplesmente para difamar alguém próximo. Senti na pele a mão pesada de Deus sobre minha vida. Paguei, ainda em vida, com consequências seríssimas das minhas escolhas.

    A rejeição, o abandono, todo sentimento de ódio e rancor foi voltado para mim como naquele ditado que diz que quando apontamos um dedo temos mais três apontados para nós. Não sou santo – por não sê-lo não tenho medo dize-lo – e carrego ainda comigo resquícios de um sentimento de justiça desorientado que diz que as pessoas que eram meus alvos realmente faziam aquilo que eu dizia, eram realmente pérfidas e até cruéis.

    São textos como o seu que trazem paz e esclarecimento para minha alma e meu ego apressadinho. Na conclusão, onde cita Provérbios 26 e “(…) amai vosso inimigos”, tive uma pequena epifania em forma de bofetada (graças a Deus, pois parece que só aprendo na porrada). Quem sou eu, que tipo de pessoa tão elevada e sublime sou que estou livre de ser julgado mesmo enquanto encontro direito de julgar os outros?

    É de se esperar, ao menos para que eu possa ter alguma esperança, que Deus tenha uma paciência maior que a de Jó. Que Nosso Senhor Jesus Cristo tenha misericórdia de mim e que escute os apelos de Nossa Senhora em prol da minha alma, pois creio-me convertido e disposto a mudar.

    Mas, claro, que Ele me cobre como São Tomé faria ao pensar que é uma promessa boa demais pra ser verdade esta que estou fazendo.

    Deus abençoe o senhor e todos do site.
    Continuarei lendo.

    Responder

    • 2 de janeiro de 2017 @ 21:28 Robério Nery

      Caríssimo, seu comentário muito nos alegra e o repassaremos ao Pe Cléber. Bendito seja Deus pelo que Ele está fazendo em sua vida!

      Responder


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