Porque o amor é sexuado


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Esse artigo é uma homília proferida pelo padre Stephen V. Hamilton, pároco da igreja de Santa Mônica em Edmond, Oklahoma. Ela foi proferida no dia 2 de novembro de 2014, dia de todos os santos, como resposta a decisão recente do estado de Oklahoma em legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O salmo responsorial de hoje (Salmo 23) nos mostra o o trabalho do Senhor que nos pastoreia. E isso nos dá uma ideia do trabalho dos pastores que continuam o trabalho de Jesus no ministério. O salmo nos diz sobre o pastor:  “Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos Ele me leva”. As Escrituras indicam repetidamente  que ovelhas necessitam de um pastor. Elas vagam. Elas se perdem. Elas se lançam em caminhos perigosos que não são bons para elas. Um pastor é necessário para guia-las por “caminhos retos”. As Escrituras e Jesus em pessoa usam dessa imagem para descrever a guia que nossas almas necessitam para irem pelos caminhos corretos que levam ao Paraíso. Isso é um desafio para os ouvidos modernos. Nós meio que achamos cativantes sermos ovelhas em um rebanho. Mas essa atitude pode mudar rapidamente quando um pastor de fato nos chama para longe do caminho errado que hoje é celebrado em nossa sociedade secularista. Em outras palavras, o pastor é normalmente apreciado quando ele identifica-se a si mesmo como apenas outra ovelha. Mas ele pode encontrar forte resistência quando exercer seu pastoreio.

Com isso em mente, eu vou adentrar em um difícil tópico. Eu quero falar sobre a legalização quatro semanas atrás do casamento entre pessoas do mesmo sexo em Oklahoma. Mais precisamente, o que quero focar aqui não é o casamento gay em si, mas a questão mais profunda de como viemos parar aqui, como chegamos a esse dia. Toda vez que eu falo ou abordo um tópico delicado eu sempre acho necessário deixar claro que não é minha intenção, não está em meu coração, o desejo de ofender, mas ser um pastor que guia pelos caminhos retos.  Vocês irão notar que minhas recomendações são direcionadas a todos e não apenas aqueles que sentem atração pelo mesmo sexo. O farisaísmo que esquiva-se ou humilha essas pessoas não é de Deus. A moralização vazia que torna a dignidade da pessoa dependente de orientação heterossexual não é o que ensina a Igreja. Não devemos aceitar os atos homossexuais mas nós devemos sempre usar de paciência e compreensão para ajudar aqueles que carregam o fardo e vivem uma luta com sua orientação sexual. Ódio contra gays não tem lugar na vida do cristão. Se não caminhamos com essas pessoas, se nos afastamos delas, de que forma podemos clamar ser o Corpo de Cristo?

No dia após a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo em nosso estado, o Oklahoman publicou um artigo em que um proeminente pastor protestante foi citado dizendo “O amor não tem sexo. O amor é o mesmo quando um homem casa com uma mulher, ou um homem casa com um homem, ou uma mulher casa com uma mulher. É o mesmo”. Lendo essa citação me vi perguntando “É verdade? Em que sentido o amor não tem sexo?”

Essa sentença é verdadeira se estamos falando de Deus. A Primeira Epístola de São João diz “Deus é amor” (1Jo 4, 16). Deus é completo em si mesmo. Ele não é limitado a um sexo. Nós usamos pronomes pessoais a Deus, mas nós não temos a intenção de dizer que Deus é “macho” ou “fêmea”. As palavras do pastor podem fazer sentido para então. Mas ele estava falando da realidade de Deus quando ele disse “O amor não tem sexo?” Não!

Tente imaginar “amor” como uma coisa em si mesma. Em outras palavras, tente imaginar a realidade expressa pela palavra “amor”. O conceito de “amor” é assexuado. Considere o amor pelos membros de uma família ou amor a pátria. A realidade sendo expressada pela palavra “amor” não possui em si um gênero sexual. As palavras do pastor parecem fazer sentido então. Mas ele estava se referindo ao conceito de amor como uma coisa em si quando ele disse “O amor não tem sexo?” Não!

Vamos relembrar: O pastor estava falando especificamente sobre o contexto do casamento quando disparou a sentença. Então, sou forçado a perguntar:  O que pode significar “o amor não tem sexo” quando estamos falando do amor carnal entre humanos sendo quem são, de fato, em corpos sexuados – macho e fêmea? Pode essa sentença ser verdadeira quando usada no contexto dessa união cuja proposta é unir dois corpos em um?

Considere seu próprio sexo. Eu sou homem e isso influência todo o meu ser. Tudo o que faço é de alguma forma influenciado pela minha virilidade. Em certo sentido, pode ser dito sobre tudo que faço que “um homem fez aquilo”. Meu sexo não necessariamente define todos os aspectos de minha vida, porém, influencia minha vida inteira. O sexo influencia todo nosso ser e é parte de como vivemos, nos movemos e nos expressamos através de nosso corpo. E quando falamos de sexualidade e atividade sexual, quão mais o sexo está envolvido? Quando um ser humano ama, e especificamente a outra pessoa, é um ato que abarca a pessoa integralmente. Claro, o amor não precisa ser genital, sexual, mas nesse caso há uma identidade sexual nesse amor, pois quem ama ali é um ser humano, homem ou mulher. Cristianismo acredita em uma verdade que a sociedade secularizada rejeita, de fato, que o corpo é importante. O que fazemos nele, e com ele, e através dele, importa. Importa para a vida na terra. Importa para o nosso julgamento e a eternidade. São Paulo escreve: “Porque teremos que comparecer diante do tribunal de Cristo, Ali, cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo” (II Cor 5,10). A ressurreição de Jesus – em um corpo! – nos mostra o valor do corpo. O corpo não é apenas o veículo sem sentido, jogado fora quando nossa vida na terra termina. Não foi assim para Jesus e não será assim para nós. Depois da morte, a ressurreição significará que nossa alma reunida com nosso corpo irá gozar das alegrias no Céu ou ser castigada no inferno. Iremos experimentar o Céu ou o inferno em um corpo. Essa é nossa fé.

Então, como chegamos ao ponto na sociedade em que uma sentença evidentemente falsa como a do pastor pode ser legitimada e visivelmente aceita? Como a identidade sexual foi separada do amor? Como o poder do sexo foi separado do amor? Lembre-se que o contexto aqui é casamento. Então, se o amor sexual no casamento não requer diferença entre os sexos então não tem uma conexão significativa com o natural desígnio da procriação e com a geração de vida humana. Sem essa conexão necessária entre o amor sexual e a procriação, então, o que resta entre o amor humano? O que resta é puramente a gratificação física e qualquer outra coisa que os parceiros decidam agregar a isso. Se o amor não é nada além de gratificação física entre duas pessoas, então gênero sexual não importa. Mas, eu te pergunto, é isso que o amor é, em um contexto sexual humano? É isso que o amor é no seu casamento? Eu acho que não. E dado que casamento é precisamente o contexto, as palavras do pastor são totalmente falsas. Digo mais, são palavras moralmente perigosas dado que um pastor está guiando pessoas por caminhos errôneos. Suas palavras são falsas pela lei natural, que é a ordem visível na criação e claramente presente no contexto sexual do amor, que foi feito para a mútua complementação entre o masculino e o feminino. Suas palavras são moralmente perigosas porque, dentre tantas razões, elas contradizem o ensinamento das Escrituras de que o que fazemos com nossos corpos importa para nossa vida presente e para nossa salvação.casal-apaixonado-sombra

Toda essa mentira tem podido se espalhar porque o amor heterossexual tem sido separado do sua profunda e necessária conexão com a procriação. A prevalência do uso de contraceptivos tem tornado possível separar a intrínseca ordem da sexualidade humana. Não sejamos ingênuos. Contracepção se esconde sob rótulos de “responsabilidade”, “segurança”, e “proteção”. Mas de fato, o que é primordial é separar aquilo que Deus uniu e deveria ser gozado pelo amor sexual compartilhado entre homem e mulher. Deus uniu a sexualidade humana o bem da unidade esponsal (a união) e o bem da procriação (os bebês). Eu acho que precisamos admitir o que aconteceu com a sociedade. Aquele que advogam pelo “casamento igualitário” estão de certa forma refletindo o que eles vêem na prática que é tão evidente entre os heterossexuais. O recado que eles querem dar aos heterossexuais é “Bem, se você pode optar por um amor estéril, não conectado com poder da sexualidade humana de gerar vida, então porque não podemos optar por isso também? Se você pode escolher apenas a parte prazerosa do amor, então porque não podemos escolher isso também?”

E aqui está o porque eu gostaria que minhas palavras não fossem entendidas como dirigidas aos que vivem em relacionamento com pessoas do mesmo sexo. Minhas palavras são dirigidas primariamente aos casados em relacionamento heterossexual. O mundo precisa que você resista a desordem que é introduzida no amor sexual humano quando a contracepção é praticada. Amor sexual é desordenado quando o desígnio de Deus de unir os esposos e gerar vida é separado por contracepção e outros meios. Então para vocês chamados a viver a sagrada vocação em Cristo pelo sacramento do Santo Matrimônio, eu digo: o mundo precisa do testemunho de seu amor como entrega total. O mundo necessita do seu testemunho da verdade do desígnio divino para o amor expresso quando heterossexuais vivem o amor em um pleno caminho humano que não separa a união esponsal do corpo e a abertura a geração da vida.

Então o caminho reto em que eu desejo pastorear vocês hoje é o do reconhecimento da necessidade urgente que o Senhor tem para você hoje de viver seu amor matrimonial de forma fecunda. Para muitos de vocês aqui pode ter havido pecado no passado. Vocês podem ter escorregado na mentalidade contraceptiva de nossa sociedade e no que chamarei de má prática espiritual de pastores que permaneceram em silêncio o que lhes deram falsos conselhos. Se esse é o caso, arrependei-vos. Não tenham medo! O Senhor nos ama e cura em sua misericórdia na confissão. Se seus anos férteis passaram e você sentir-se culpado por decisões passadas, então ajude a próxima geração. Ofereça sacrifícios e penitências por eles e por ti. Seja um apóstolo do significado pleno do amor entre marido e esposa e conte a seus filhos e netos, a qualquer um que ouvir, e os mostre o profundo significado expresso do amor humano que respeita a ordem estabelecida por Deus. Se você ainda está em seus anos férteis, aprenda sobre o planejamento familiar natural e reverencie a Deus vivendo o amor com seu cônjuge. Se você é jovem e busca o casamento, então pratique a disciplina na castidade agora, e reconheça que quando você casar você precisa estar preparado para os filhos. Se não está preparado para os filhos então não está preparado para o casamento. Você que é chamado a viver o amor sexual é a esperança do retorno de nossa sociedade a reverência pelo amor esponsal que irá ajudar todas as pessoas a verdadeiramente realizarem-se. Venha, Senhor Jesus, nos pastorear por retos caminhos!

Traduzido por Daniel Alves de Araújo.



Sobre

Carioca, 24 anos, social media, redator e aspirante a congregado mariano. Em tudo: "Ite ad Ioseph"


'Porque o amor é sexuado' possui 1 comentário

  1. 27 de dezembro de 2015 @ 15:08 Wellington Pereira

    Muito bom o texto bela reflexão.

    Responder


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